Nos últimos dias, um dos assuntos que mais repercutiram nos bastidores da política e também nos corredores do Supremo Tribunal Federal foi a fala de Gilmar Mendes. O ministro, que já é figura conhecida por não fugir de polêmicas, declarou nesta quarta-feira (27) um apoio que ele mesmo classificou como “inquestionável” ao colega Alexandre de Moraes. A manifestação aconteceu durante o Fórum Empresarial Lide, em São Paulo, evento que reuniu empresários, políticos e formadores de opinião.
A declaração surgiu quando Gilmar foi questionado sobre a recente decisão que determinou reforço no policiamento em torno da casa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Mendes disse não ter conhecimento profundo dos detalhes da medida, mas não deixou dúvida quanto ao seu posicionamento:
— Eu apoio o ministro Alexandre de maneira inquestionável. Eu acho que o Brasil deve muito ao ministro Alexandre. Se hoje estamos aqui num ambiente democrático, devemos muito a ele. E eu sei que a história vai fazer justiça — afirmou, arrancando alguns aplausos da plateia.
Esse apoio não é isolado. Dentro do Supremo, Moraes tem sido constantemente alvo de críticas e, ao mesmo tempo, de reconhecimentos. Sua postura firme em casos delicados, como os que envolvem ataques às instituições democráticas e às eleições de 2022, renderam a ele tanto aliados quanto inimigos declarados. Gilmar, um dos decanos da Corte, aproveitou o momento para reforçar a importância do colega no atual cenário.
Mas a fala não parou por aí. Mendes também aproveitou o microfone para criticar atitudes vindas de fora do país, em especial do governo dos Estados Unidos. Ele classificou como “impróprias” eventuais pressões externas que tentem influenciar o funcionamento do Judiciário brasileiro. Segundo ele, negociações comerciais entre países são parte normal do jogo diplomático, mas quando envolvem a independência das instituições, a linha é ultrapassada.
— É evidente que negociações comerciais se fazem a toda hora. Agora, tentar envolver nessa cesta o papel institucional do país, a independência do Judiciário, seja lá o que for, é impróprio — disse. Em seguida, fez uma provocação indireta ao ex-presidente norte-americano Donald Trump, trazendo à tona o famigerado “Epstein Files”.
Para quem não acompanhou, o caso envolve o bilionário Jeffrey Epstein, preso por comandar uma rede de exploração sexual de menores e que morreu em 2019 em uma cadeia de Nova Iorque. Até hoje, a morte é cercada de teorias da conspiração. Epstein mantinha relações com figuras poderosas do mundo político, financeiro e artístico, o que alimentou ainda mais a curiosidade em torno da lista de nomes que supostamente teriam ligação com o escândalo.
Durante a campanha presidencial de 2024, Trump chegou a prometer que tornaria públicos documentos secretos sobre o caso. Em fevereiro deste ano, parte de arquivos foi divulgada, mas sem provas concretas sobre a tal lista de clientes. A então procuradora-geral, Pam Bondi, chegou a dizer que tinha uma lista “em sua mesa”, mas o FBI mais tarde afirmou não ter encontrado nada consistente.
Mesmo assim, o assunto voltou aos holofotes em junho, quando Elon Musk, numa de suas famosas postagens polêmicas na rede social X, insinuou que o nome de Trump poderia estar na lista. O post não durou muito tempo: foi apagado, e Musk pediu desculpas. Em julho, o jornal Wall Street Journal publicou que Trump teria sido avisado de sua possível citação nos arquivos, mas a Casa Branca desmentiu e classificou a informação como fake news.
Ao puxar esse paralelo, Gilmar Mendes tentou mostrar o quão absurdo seria misturar questões institucionais sérias com disputas comerciais ou pressões externas. Para ele, a soberania do Judiciário não pode ser colocada na mesa de negociação, do mesmo jeito que não faria sentido o Brasil exigir a divulgação do Epstein Files em troca de acordos com Washington.
No fim das contas, a fala de Gilmar ecoou não apenas como um gesto de apoio a Moraes, mas também como um recado claro: a Justiça brasileira não está disposta a abrir mão de sua autonomia, mesmo em um cenário global cheio de interesses cruzados.