Nos últimos dias, o governo de Donald Trump voltou a movimentar as engrenagens diplomáticas, agora mirando diretamente autoridades brasileiras ligadas à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR). O pacote de medidas inclui, entre outras coisas, a perda imediata do visto de entrada nos Estados Unidos para alguns nomes já identificados, e ainda discute-se a aplicação da chamada Lei Magnitsky, ferramenta usada pelos EUA contra casos de corrupção e abusos de direitos humanos pelo mundo.
A situação ganhou força depois que o ministro do STF Alexandre de Moraes foi incluído na lista de sanções norte-americanas, decisão que também atingiu sua esposa, Viviane Barci de Moraes. Não é segredo que Moraes virou alvo constante de críticas por parte de setores conservadores, tanto dentro quanto fora do Brasil. Em fóruns internacionais, inclusive, cresce a pressão de grupos que consideram as ações do ministro uma afronta à liberdade de expressão digital.
Mas há uma diferença entre revogar vistos e aplicar a Magnitsky. O primeiro movimento costuma ser rápido: a qualquer momento, o Departamento de Estado pode anunciar a lista com nomes de procuradores e delegados da PF que já estão impedidos de colocar os pés em território americano. O segundo caminho, por outro lado, é bem mais burocrático. Um processo de sanção via Magnitsky pode levar meses, passando por análises, revisões internas e, só então, chegar ao aval da Casa Branca.
Entre os atingidos até agora está o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Ele perdeu o visto e, mesmo possuindo dupla cidadania, não pode mais recorrer ao passaporte português como alternativa de entrada nos EUA. O recado é claro: Washington não pretende dar margem a manobras jurídicas para contornar as restrições.
E a lista não para por aí. Segundo fontes ligadas às conversas em Washington, os próximos alvos podem incluir o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o delegado Fabio Shor. Este último ganhou notoriedade por conduzir investigações que atingiram militantes de direita e até o próprio Jair Bolsonaro, hoje condenado a 27 anos de prisão por golpe de Estado e outros quatro crimes. A pena pesada foi um dos assuntos mais comentados da semana, com cobertura intensa da imprensa brasileira e estrangeira.
O governo Trump, ao que parece, está mirando justamente em quem conduziu esses inquéritos. A leitura política é de que a Casa Branca quer se posicionar como defensora de direitos individuais, especialmente no campo digital. Nos bastidores, comenta-se até que a medida pode ajudar Trump a reforçar sua imagem junto à base eleitoral mais conservadora, que acompanha de perto as movimentações políticas do Brasil.
Para completar, nesta última segunda-feira (22/9), a Casa Branca anunciou oficialmente a revogação do visto de sete autoridades brasileiras. Entre os nomes confirmados está o do advogado-geral da União, Jorge Messias, que vinha sendo cotado para participar de eventos jurídicos internacionais ainda neste semestre. A medida gerou mal-estar em Brasília, onde membros do governo classificaram a decisão como “ingerência externa” nos assuntos internos do país.
O impacto dessas sanções, embora simbólico em parte, já começa a ser sentido. Autoridades que planejavam viagens aos Estados Unidos terão que reorganizar agendas, e até encontros diplomáticos previstos podem ser esvaziados. Além disso, cresce o temor de que a lista de punidos seja expandida nos próximos meses, com nomes de ministros, servidores e até magistrados que tiveram papel de destaque nas investigações contra Bolsonaro e seus aliados.
No cenário atual, a sensação é de que as relações entre Brasília e Washington vão enfrentar dias turbulentos. Se a intenção de Trump é usar o caso brasileiro como palco político, o resultado prático pode ser um distanciamento diplomático em áreas sensíveis, como cooperação em segurança cibernética e combate ao crime organizado. O que está em jogo, no fim das contas, é mais que a validade de um visto: trata-se de um embate sobre princípios, poder e narrativa.