Sanções de Trump prejudicam primeiro dia de Lula em NY; entenda

O primeiro dia da viagem de Luiz Inácio Lula da Silva a Nova York, para a Assembleia-Geral da ONU, acabou sendo meio que ofuscado por um movimento nada amistoso vindo de Washington. O governo Donald Trump anunciou uma nova rodada de sanções contra autoridades brasileiras, jogando mais lenha numa fogueira diplomática que já vinha quente. E tudo indica que Lula não vai deixar barato: a expectativa é de que nesta terça, 23, ele use justamente o discurso de abertura da Assembleia pra responder, em tom firme, às provocações.

Quem acompanha de perto já sabia que o presidente preparava um posicionamento duro, denunciando o que considera ingerência dos Estados Unidos sobre a soberania nacional e até sobre as próprias instituições brasileiras. Fontes próximas ao Planalto comentam que o texto do discurso passou por diversas revisões até a noite de segunda-feira, numa correria típica da véspera de um dos momentos mais simbólicos da diplomacia brasileira.

Mesmo com a tensão no ar, Lula não deixou de cumprir uma agenda movimentada em Nova York. Participou de uma conferência em defesa da criação de um Estado palestino, deu entrevista para a PBS, emissora pública americana de grande alcance, e ainda recebeu em Manhattan o CEO do TikTok, Shou Zi Chew. Esse último encontro chamou atenção: em tempos de disputas tecnológicas entre EUA e China, conversar com o chefe da plataforma que virou febre mundial não deixa de ter seu peso político.

No discurso, Lula deve assumir um papel de antagonista direto em relação a Trump. Um dos pontos mais esperados é a defesa enfática da Organização Mundial do Comércio, que foi praticamente paralisada por decisões americanas no governo republicano. Além disso, Lula vai cobrar dos países ricos mais responsabilidade no financiamento climático, lembrando o Acordo de Paris — do qual os EUA já se afastaram novamente — justo dois meses antes da COP-30, que será realizada em Belém do Pará. Esse detalhe, aliás, deve ser usado como carta política: mostrar que o Brasil está comprometido em casa e no cenário global.

Outro ponto esperado é a crítica à própria ONU. Essa será a 10ª vez que Lula fala na Assembleia-Geral, mas o tom não será de celebração. Pelo contrário, ele deve acusar o Conselho de Segurança de estar paralisado, sempre travado pelo poder de veto dos membros permanentes, e reclamar da falta de representatividade num mundo cada vez mais multipolar. Vale lembrar que a abertura deste ano marca os 80 anos da ONU, e Lula deve usar o simbolismo da data para pressionar por mudanças estruturais.

Na parte internacional, o petista vai abordar a guerra da Ucrânia, defendendo negociações de paz, mesmo sem citar diretamente o desgaste de Moscou. Lula já conversou três vezes com Vladimir Putin desde agosto, mas não fala com Volodmir Zelenski há meses. Ainda assim, há a possibilidade de uma reunião reservada com o líder ucraniano acontecer nos corredores da ONU, algo que se tornou quase um “momento esperado” nesses encontros multilaterais.

Mas se o palco global já prometia tensão, a crise bilateral com os EUA roubou os holofotes. O Departamento de Estado confirmou que cortou vistos do ministro Jorge Messias, advogado-geral da União, e de integrantes do Judiciário. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, inclusive, cancelou sua viagem depois de ser informado de restrições de locomoção. E não parou aí: o Tesouro americano anunciou sanções financeiras contra Alexandre de Moraes, ministro do STF, sua esposa Viviane Barci de Moraes e até o Instituto Lex, ligado à família.

O Itamaraty reagiu enviando uma carta dura ao secretário-geral da ONU, António Guterres. Diplomatas veteranos avaliam que essa é a crise mais grave entre Brasil e Estados Unidos em 200 anos de relações oficiais. E, no meio dessa tempestade, Lula sobe ao púlpito da ONU para falar ao mundo. Se alguém ainda tinha dúvida, o discurso desta terça já entrou pra lista dos mais esperados da história recente da diplomacia brasileira.



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