A morte de Heloisa de Carvalho Martin Arribas, filha do escritor Olavo de Carvalho, segue cercada de perguntas e contrastes que chamam a atenção até de quem não acompanhava de perto as disputas políticas da família. Encontrada morta na noite desta quarta-feira (7), aos 56 anos, em sua casa em Atibaia, no interior de São Paulo, Heloisa havia feito poucos dias antes uma postagem polêmica nas redes sociais que voltou a circular com força após a notícia.
No dia 4 de janeiro, usando o X (antigo Twitter), ela escreveu que estava “viva e completa” para ver os chamados “bolsolavettes” — termo pejorativo usado por críticos para se referir a apoiadores de Olavo de Carvalho e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — sendo presos. A publicação, curta e direta, carregava o tom ácido que marcou boa parte de suas manifestações públicas nos últimos anos.
“Eu estou viva e completa para ver todos os bolsolavettes indo um a um pra cadeia”, escreveu.
O comentário, que na época passou quase despercebido fora de círculos políticos, ganhou novo peso após a confirmação de sua morte. Para muitos, o contraste entre a frase e o desfecho trágico foi chocante. Para outros, é apenas mais um capítulo de uma trajetória marcada por rupturas, embates ideológicos e exposições públicas.
Heloisa rompeu com o pai ainda em vida, em razão de discordâncias políticas profundas. Enquanto Olavo se tornou um dos principais ideólogos da direita brasileira, ela seguiu caminho oposto, adotando posições de esquerda e críticas duras ao bolsonarismo. Chegou, inclusive, a se filiar ao Partido dos Trabalhadores (PT), algo que simbolizou de vez o afastamento familiar. A relação entre os dois nunca mais foi recomposta, nem mesmo antes da morte do escritor, em 2022.
De acordo com informações divulgadas inicialmente pelo Pleno.News e confirmadas por apuração do Jornal Opção junto à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), Heloisa foi encontrada sem vida, deitada sobre a cama de sua residência. Ao lado, havia um copo com um líquido de coloração alaranjada, detalhe que chamou a atenção dos investigadores logo no primeiro momento.
A cena na casa levantou ainda mais dúvidas. Na cozinha, policiais encontraram uma lata de cerveja aberta, duas garrafas de bebida vazias e outra de água misturada com uma substância branca, semelhante a medicamentos dissolvidos. Também foram localizados dois frascos de anticonvulsivante abertos e um antifúngico pela metade. Tudo foi recolhido para análise.
Um ponto que reforça o mistério é o fato de que, no dia anterior à morte, Heloisa teria procurado atendimento médico em um hospital da região, com suspeita de intoxicação por medicamentos. Ainda não está claro se esse episódio tem ligação direta com o óbito, mas a informação passou a ser considerada relevante na investigação.
Até o momento, a SSP não divulgou a causa oficial da morte. O caso segue sob apuração, e exames periciais devem ajudar a esclarecer o que de fato aconteceu nas últimas horas de vida de Heloisa. Pessoas próximas relatam que ela vivia de forma reservada, apesar da presença frequente nas redes sociais e do histórico de embates públicos.
Nas redes, as reações se dividem. Há quem critique o tom da última postagem, há quem veja nela apenas mais uma provocação política, e há também quem lamente profundamente o desfecho, independentemente das posições ideológicas. Em meio a tudo isso, fica a sensação de que, mais uma vez, a política brasileira extrapolou o debate público e se misturou de forma dolorosa à vida privada.
Enquanto as respostas não vêm, o caso segue gerando repercussão e levantando discussões sobre saúde mental, polarização política e os limites das disputas ideológicas em tempos tão extremos.