A incerteza virou rotina dentro da casa de Clarice Cardoso. Há dez dias, ela acorda e dorme com a mesma pergunta martelando a cabeça: onde estão Ágatha Isabelly, de apenas 6 anos, e Allan Michael, de 4? Os dois irmãos desapareceram em Bacabal, no interior do Maranhão, e desde então a família vive um misto de esperança, medo e desespero que só quem é mãe consegue explicar de verdade.
Em entrevista à TV Mirante, afiliada da Globo no estado, Clarice falou com a voz cansada, mas firme, sobre o que mais deseja nesse momento. Não é luxo, não é explicação complicada. É algo simples, quase óbvio, mas que parece distante demais.
“O que eu espero é que eles encontrem meus filhos. Se pegaram, saber quem pegou e o porquê. Isso é o que passa na minha cabeça”, disse ela, visivelmente abalada. E não tem como não se colocar no lugar dela. Dez dias esperando uma notícia, qualquer sinal, deve ser um tipo de tortura silenciosa.
Questionada sobre a possibilidade de as crianças ainda estarem na mata, Clarice foi sincera. Disse que não sabe. As buscas já passaram por vários pontos da zona rural de Bacabal e, até agora, nada que leve diretamente aos irmãos foi encontrado. É aquele tipo de resposta que dói justamente por não ter certeza nenhuma.
Atualmente, mais de 600 pessoas estão envolvidas nas buscas, entre agentes de segurança e voluntários. É gente que vem de todo canto, alguns por obrigação profissional, outros apenas por solidariedade. Mesmo assim, o vazio continua. Nenhuma pista concreta, nenhum objeto, nenhuma confirmação.
Enquanto isso, o impacto emocional vai cobrando seu preço. Clarice contou que praticamente não dorme direito desde o desaparecimento dos filhos. Comer virou algo secundário. O corpo sente, a mente não para.
“Tem sido difícil. Pra dormir, tive que tomar medicação, não comia. É uma dor que não desejo pra ninguém”, completou, emocionada. É o tipo de frase que dispensa complemento. Dá pra sentir o peso só de ler.
Nesta quarta-feira (13), as buscas entram no 11º dia com uma nova estratégia. As equipes decidiram ampliar ainda mais a área de varredura, concentrando esforços nas proximidades da comunidade São Sebastião dos Pretos. A região, que já é de difícil acesso, cobre cerca de 54 quilômetros quadrados. Para tentar organizar melhor o trabalho, o terreno foi dividido em 45 quadrantes, e cada equipe ficou responsável por um deles. É uma operação grande, quase de guerra, contra o tempo.
Participam dessa força-tarefa profissionais do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Corpo de Bombeiros, Polícia Civil, Polícia Militar, Guarda Municipal e até o Exército Brasileiro. Além disso, voluntários cadastrados seguem ajudando, mesmo com o cansaço evidente. Tem gente que já está há dias sem parar, movida só pela esperança de encontrar as crianças.
Ágatha e Allan desapareceram no dia 4 de janeiro, junto com Anderson Kauã, de 8 anos. Os três saíram para brincar em uma área de mata na região do Quilombo de São Sebastião dos Pretos, na zona rural de Bacabal. O que era pra ser uma tarde comum virou um pesadelo.
Três dias depois, Anderson foi encontrado por produtores rurais. Estava nu, desorientado, em estado de choque. A imagem chocou o país e levantou todo tipo de suspeita. Nesta terça-feira, porém, as autoridades descartaram a ocorrência de violência sexual contra o menino, o que trouxe um pequeno alívio, mas não respostas.
Enquanto isso, Ágatha e Allan seguem desaparecidos. E Clarice segue esperando. Esperando acordada, esperando sedada, esperando com fé e com medo. Bacabal, o Maranhão e muita gente Brasil afora continuam torcendo para que essa história tenha um desfecho diferente do que todos temem.