O Agente Secreto recebeu mais de R$ 7 milhões do governo Lula

O cinema brasileiro voltou a ocupar um espaço de destaque no cenário internacional, e não foi pouca coisa. “O Agente Secreto”, longa dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, saiu consagrado ao vencer as categorias de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Ator de Drama. Junto com os prêmios, vieram também questionamentos nas redes sociais, principalmente sobre o financiamento da obra e o velho debate envolvendo dinheiro público, governo e cultura.

Para começar pelos números: o filme teve um orçamento total de R$ 27.165.775. Desse montante, R$ 7,5 milhões tiveram origem no governo federal, por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), ligado à Agência Nacional do Cinema (Ancine). A informação, embora correta, costuma ser apresentada de forma distorcida em discussões políticas mais acaloradas, como se fosse um simples “cheque em branco” bancado pelo contribuinte — o que não é bem assim.

O FSA funciona com recursos arrecadados dentro do próprio mercado audiovisual. Parte do dinheiro vem de taxas cobradas sobre exibição de filmes, serviços de streaming, distribuição e outros segmentos da cadeia produtiva. Ou seja, não se trata de um saque direto do orçamento da saúde ou da educação, como muita gente insiste em afirmar por aí. É um fundo que reinveste no próprio setor, buscando estimular a produção nacional.

E a Lei Rouanet, sempre citada nesses debates? Pois é aí que muita gente se perde. Diferente de shows, exposições e outros projetos culturais, filmes não podem captar recursos pela Lei Rouanet. Mesmo assim, o mecanismo continua sendo associado automaticamente a qualquer produção artística de grande repercussão, principalmente por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que costumam atribuir a lei exclusivamente aos governos petistas. Um detalhe curioso, e quase sempre ignorado, é que a Lei Rouanet foi criada ainda no governo de Fernando Collor de Mello.

Vale lembrar também que a Rouanet não envolve repasse direto de dinheiro público. Ela funciona como um sistema de renúncia fiscal, no qual empresas e pessoas físicas escolhem destinar parte do imposto devido para projetos culturais aprovados. Pode-se discutir os critérios, a concentração de recursos e até os abusos, claro. Mas confundir os instrumentos acaba empobrecendo o debate.

No caso específico de O Agente Secreto, a maior parte do orçamento veio de fora do Brasil. França, Alemanha e Holanda investiram cerca de R$ 14 milhões na produção, mostrando que o filme despertou interesse internacional ainda na fase de desenvolvimento. Além disso, houve R$ 5,5 milhões da iniciativa privada nacional, completando a conta junto aos recursos do FSA.

Esse modelo misto de financiamento não é novidade no cinema autoral e nem exclusividade brasileira. Produções europeias e latino-americanas costumam depender justamente dessa combinação entre fundos públicos, investimento privado e coproduções internacionais. Sem isso, muitos filmes simplesmente não sairiam do papel.

Enquanto a polêmica segue nas redes, o filme continua sua trajetória de sucesso. Após conquistar prêmios importantes, O Agente Secreto agora chama atenção no Globo de Ouro, ampliando ainda mais sua visibilidade. A obra é ambientada no Brasil de 1977, em pleno período da ditadura militar, e acompanha Marcelo, um professor especializado em tecnologia que deixa São Paulo e se muda para Recife tentando reconstruir a própria vida. O problema é que o passado, violento e mal resolvido, insiste em bater à porta.

Com clima de thriller político, narrativa tensa e uma atuação elogiada de Wagner Moura, o longa não só reforça a força do cinema brasileiro lá fora, como também reacende debates antigos aqui dentro. No fim das contas, gostando ou não do filme, os números mostram que ele é resultado de um esforço coletivo — artístico, financeiro e internacional — que vai muito além de slogans políticos ou discussões rasas de internet.



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