O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a se reunir, de forma reservada, com um dos ministros mais influentes do Supremo Tribunal Federal. Desta vez, o encontro foi com Alexandre de Moraes, em um almoço longe dos holofotes e fora das agendas oficiais. A informação foi revelada pelo colunista Igor Gadelha, do portal Metrópoles, e rapidamente chamou atenção em Brasília, onde nada passa despercebido por muito tempo.
Segundo relatos de ao menos três fontes ligadas tanto ao governo quanto ao Judiciário, Lula e Moraes almoçaram a sós em janeiro, sem assessores, sem fotos e sem comunicado oficial. Não há registro do encontro nos compromissos públicos do presidente nem do ministro do STF, o que reforça o caráter reservado da conversa. Em Brasília, quando algo não entra na agenda, geralmente entra no radar político.
De acordo com pessoas próximas aos dois, o assunto principal girou em torno da segurança pública, tema que voltou ao centro do debate nacional após uma série de episódios violentos registrados no início do ano em diferentes estados. O governo federal tem buscado uma atuação mais firme nessa área, enquanto o Judiciário, especialmente o STF, segue sendo pressionado por decisões que impactam diretamente políticas de segurança.
Esse almoço não foi um fato isolado. Pelo contrário. Foi o segundo contato entre Lula e Moraes apenas em janeiro. Poucos dias antes, em 15 de janeiro, o ministro esteve no Palácio do Planalto para uma reunião com o presidente e com o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Na ocasião, o clima também teria sido de conversa franca, ainda que institucional.
Esse encontro no Planalto ocorreu em um momento sensível. Um dia antes, Alexandre de Moraes havia determinado a abertura de um inquérito para investigar uma possível quebra irregular de sigilo fiscal envolvendo ministros do STF e familiares. A apuração mira dados da Receita Federal e do Coaf, o que elevou a temperatura nos bastidores de Brasília e acendeu alertas tanto no meio político quanto no jurídico.
Não é de hoje que Lula mantém diálogo direto com ministros do Supremo, especialmente em momentos delicados. Em dezembro, por exemplo, o presidente participou de um almoço reservado com o ministro Dias Toffoli, relator do chamado caso Master no STF. Assim como agora, o encontro também não constou em agenda oficial, o que virou motivo de comentários entre aliados e opositores.
Para aliados do governo, esse tipo de reunião faz parte do jogo político e institucional. Argumentam que Lula, experiente como é, sabe que manter canais abertos com o Judiciário é fundamental para a governabilidade. Já críticos enxergam nesses almoços uma zona cinzenta, onde os limites entre diálogo institucional e articulação política ficam mais difíceis de distinguir.
O fato é que, em um cenário de polarização, investigações sensíveis e pressão constante sobre os Poderes, encontros discretos como esse acabam ganhando peso maior do que teriam em outros tempos. Mesmo sem atas, fotos ou declarações oficiais, o almoço entre Lula e Moraes diz muito sobre o momento atual do país — um Brasil onde conversas reservadas valem tanto quanto discursos públicos.
E, em Brasília, quando o silêncio é grande demais, sempre tem algo sendo dito nas entrelinhas.