Pepita: A Luta e as Conquistas de uma Voz Trans que Incomoda
O dia 29 de janeiro não é apenas uma data no calendário; é o Dia Nacional da Visibilidade Trans. Para Pepita, essa data representa muito mais do que um simples marco. Aos 43 anos, completados recentemente, a artista se sente como uma sobrevivente, uma vencedora diante das estatísticas que muitas vezes colocam as pessoas trans em situações de vulnerabilidade. Ela vive um momento de colheita, mas reconhece que estar na linha de frente da luta pela visibilidade e igualdade vem com seu próprio peso. “Às vezes, é cansativo estar nesse lugar, fazendo as coisas acontecerem, girando a manivela para que as mudanças ocorram”, desabafa em uma conversa sincera com a CNN Brasil.
Reflexões sobre a Vida e a Música
Pepita, que está retornando à música, compartilha suas experiências com desafios e alegrias. “No dia 25 de janeiro, quando acordei em Brasília após um show, percebi que estava viva e que conquistei mais uma vez”, revela. Esse sentimento de realização é uma vitória diária que contrasta com o cansaço que muitas vezes sente. Seja na música ou em projetos audiovisuais, Pepita se destaca, mas as perguntas sobre sua presença em certos espaços ainda persistem. Ela transforma essas questões em combustível para sua luta: “Quero incomodar quem acha que não mereço estar em determinados lugares”.
A Necessidade de Diálogo
A artista acredita que o diálogo deve ir além das fronteiras da comunidade LGBTQIA+. Ela quer alcançar pessoas fora de sua bolha de acolhimento. “Eu não quero mais falar apenas com a comunidade. Quero conversar com o Francisco, dono da padaria, que aceita meu dinheiro, mas não aceita minha presença ali. Essas são as pessoas que precisam ser tiradas da zona de conforto”, reflete, enfatizando a importância de dialogar com aqueles que, muitas vezes, não reconhecem a dor e a luta de pessoas como ela.
A Maternidade e Seus Desafios
A chegada de seu filho, Lucca Antônio, trouxe uma nova dimensão à vida de Pepita. O pequeno é fruto de seu relacionamento com Kayque Nogueira e representa uma nova etapa em sua vida. “Após me tornar mãe, consegui romper a bolha, e muitas mulheres começaram a me enxergar como ser humano”, conta. No entanto, a maternidade também trouxe novos medos, especialmente em um país que ainda tem muito a evoluir em termos de inclusão. “Estou me preparando para quando meu filho voltar da escola e me disser que um amigo disse que eu não sou mulher e que ele não é meu filho”, desabafa. Essa preocupação revela a complexidade de ser uma mãe trans em uma sociedade que ainda enfrenta preconceitos profundos.
Visibilidade e Autenticidade
Pepita compartilha que a dureza que o mundo muitas vezes lhe impõe se torna uma de suas “armas”. “Estou sempre alerta, é como se estivesse armada, observando tudo ao meu redor”, diz. Sua nova empreitada, um docreality, busca mostrar o que existe por trás da figura pública glamourosa, revelando a verdadeira Priscila Nogueira, uma mulher que veio de Marechal Hermes, na zona norte do Rio de Janeiro. “As pessoas precisam entender que travestis e pessoas trans existem e merecem respeito, amor e aceitação”, afirma com emoção.
A Celebração das Vitórias e Desafios
Com 43 anos, Pepita sente que não precisa mais provar nada a ninguém. “Se sou boa como cantora, mãe ou empreendedora, tudo que faço deve ser prazeroso”, reflete. Hoje, ela celebra tanto os “nãos” que recebeu ao longo de sua carreira quanto as vitórias que conquistou. “Sou grata a quem me disse não, pois isso me deu força e vontade de viver. Esses nãos me levaram a um caminho de luta e transformação”, conclui, com a certeza de que seu papel é ser um incômodo positivo, abrindo portas para que futuras gerações não precisem enfrentar os mesmos desafios.