Sem mencionar nome, padre critica marcha a Brasília em Aparecida; vídeo

A declaração feita durante uma missa no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida acabou colocando o padre Ferdinando Mancilio no olho do furacão político. O que era pra ser apenas uma homilia religiosa, como tantas outras, virou assunto nas redes sociais, grupos de WhatsApp e até em bastidores políticos. Sem citar nomes diretamente, o sacerdote fez duras críticas à caminhada até Brasília liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), questionando as reais intenções por trás do ato.

Durante a celebração, o padre deixou claro que, na visão dele, esse tipo de mobilização não nasce do cuidado com o povo, mas sim da ambição por poder. Ele afirmou que não fazia sentido alguém liderar uma marcha desse tamanho sem nunca ter apresentado, segundo suas palavras, “nenhum projeto concreto” em favor da população. A fala foi direta, com tom firme, daqueles que não costumam passar despercebidos.

Em um dos trechos mais comentados da homilia, Mancilio disse que o discurso de “defesa da vida”, usado pelos organizadores da caminhada, seria incoerente quando comparado à prática política de quem estava à frente do movimento. Para ele, existe uma contradição clara entre o que se fala no palanque e o que se faz na vida pública. E foi aí que muita gente começou a se remexer no banco da igreja.

“Não adianta querer fazer uma marcha para Brasília alguém que nunca teve nenhum projeto a favor do povo e dizer que está defendendo a vida. Isso é mentira, o que se quer é o poder”, afirmou o padre, acrescentando em seguida: “acho que você entende o que estou dizendo”. A frase, dita de forma quase didática, caiu como uma luva para quem já vinha criticando o ato.

A declaração aconteceu no dia 25 de janeiro, justamente a data em que a caminhada foi encerrada com uma grande manifestação em Brasília. O evento reuniu milhares de pessoas, mesmo com chuva forte, e teve como principal bandeira a defesa da anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. Além disso, o movimento também demonstrou apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, tema que ainda divide o país.

Mas não foi só isso. Ainda durante a missa, padre Ferdinando tocou em outro ponto sensível do debate político atual: o porte de armas. Ele contou que conversou com um fiel que se dizia cristão, mas que defendia o armamento da população. O padre não deixou barato e rebateu na hora, dizendo que, para ele, não existe conciliação possível entre a fé cristã e a defesa de armas.

Segundo o sacerdote, a arma tem uma única finalidade: ferir ou matar. E isso, na visão dele, entra em choque direto com os ensinamentos de Jesus. Ele chegou a mencionar que alguém tentou comparar armas com ferramentas como um machado, mas fez questão de diferenciar as coisas. “O machado pode matar, sim, mas não foi feito pra isso. A arma foi”, argumentou, levantando a pergunta que ecoou pela igreja: “de que lado nós estamos afinal?”.

A chamada Caminhada pela Justiça e Liberdade percorreu cerca de 240 quilômetros, saindo de Paracatu, em Minas Gerais, passando por cidades mineiras e goianas ao longo de seis dias. O trajeto terminou na Praça do Cruzeiro, em Brasília, onde aconteceu o ato final. Mesmo com o mau tempo, milhares de pessoas compareceram, mostrando a força de mobilização do grupo.

A fala do padre, no entanto, reacende um debate antigo: até que ponto líderes religiosos devem ou não se posicionar politicamente? Para uns, ele apenas exerceu seu direito de opinião e coerência com a fé que prega. Para outros, ultrapassou um limite delicado. O fato é que, gostando ou não, a homilia deixou de ser só religiosa e virou mais um capítulo da polarização que insiste em não dar trégua no Brasil.

Confira:



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