O clima em Itumbiara amanheceu pesado, quase irrespirável. O pequeno Benício Araújo Machado, de apenas 8 anos, será velado na manhã deste sábado (14/2), a partir das 7h, na casa do avô materno, o prefeito da cidade, Dione Araújo. A despedida acontece no mesmo endereço onde, horas antes, amigos e familiares ainda tentavam entender o que parecia impossível de explicar.
Benício é o segundo filho morto a tiros pelo próprio pai, Thales Machado, de 40 anos, que ocupava o cargo de secretário de Governo de Itumbiara (GO). O crime chocou não só a cidade, mas todo o estado de Goiás. E não é exagero dizer isso. Em grupos de WhatsApp e nas redes sociais, o assunto dominou as conversas desde quinta-feira.
A tragédia aconteceu na madrugada do dia 12 de fevereiro, dentro do condomínio onde a família morava. Benício e o irmão mais velho, Miguel Araújo Machado, de 12 anos, foram baleados dentro de casa. Depois de atirar contra os próprios filhos, Thales tirou a própria vida. Uma sequência de horror que deixou marcas que dificilmente serão apagadas.
Benício ainda foi socorrido com vida. Passou por cirurgia no Hospital Estadual de Itumbiara São Marcos (HEI) e ficou internado em estado gravíssimo. Houve corrente de oração, pedidos nas missas, gente que nem conhecia a família, mas se sensibilizou. Só que, na tarde de sexta-feira (13/2), veio a notícia que ninguém queria ouvir: o menino não resistiu.
Miguel, o irmão mais velho, morreu ainda na madrugada do crime. No enterro, amigos vestiam camisetas com a frase “Miguel eterno”. A cena foi de cortar o coração. Crianças lançando rosas brancas sobre o túmulo, pais tentando explicar o inexplicável aos filhos. É o tipo de imagem que fica.
Horas antes da tragédia, Thales havia feito uma publicação nas redes sociais. Uma mensagem que hoje soa quase como ironia cruel. “Que Deus abençoe sempre meus filhos. Papai ama muito”, escreveu. Quem leu na época não imaginava o que viria depois. E isso torna tudo ainda mais perturbador.
Em carta póstuma divulgada na internet, o então secretário atribuiu o crime a uma suposta traição da esposa e a problemas no casamento. Pediu desculpas a familiares e amigos. Disse que estava sofrendo. A mãe das crianças estava em viagem a São Paulo quando tudo aconteceu. Voltou para Goiás para enterrar os dois filhos. Não há palavras que deem conta dessa dor, sinceramente.
Especialistas classificam casos assim como violência vicária — quando o agressor atinge os filhos para punir a mãe. No fim do ano passado, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) passou a reconhecer oficialmente esse tipo de crime como uma forma de violência de gênero e grave violação de direitos humanos. Segundo o órgão, trata-se de uma prática que perpetua a violência contra mulheres-mães por meio da manipulação dos vínculos parentais. É pesado até de ler.
A Polícia Civil de Goiás investiga o caso. A ocorrência foi registrada inicialmente como homicídio consumado e homicídio tentado, seguidos de suicídio. Até agora, não há indícios de participação de terceiros. A dinâmica exata do crime ainda está sendo apurada.
Thales estava no cargo desde 2021 e era genro do prefeito. Figura conhecida na política local, se apresentava nas redes como “nascido e criado em Itumbiara, pai, marido e alguém que acredita muito no cuidado com as pessoas”. Também aparecia frequentemente em fotos com os filhos, inclusive em jogos do Clube de Regatas do Flamengo, time do coração da família.

Nos bastidores, era apontado como possível candidato a deputado nas eleições deste ano, com apoio do sogro. Agora, a cidade vive dias de luto oficial, decretado desde quinta-feira. Itumbiara, que já enfrentou outras perdas e crises políticas no passado, volta a ser manchete por uma dor que não tem tamanho.
No fim das contas, o que fica é um silêncio difícil de suportar. Duas crianças que tinham a vida inteira pela frente. Uma família destruída. E uma cidade tentando, aos poucos, juntar os pedaços.