A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) roubou parte dos holofotes na primeira noite do Grupo Especial do carnaval de São Paulo. A parlamentar cruzou o Sambódromo do Anhembi, nesta sexta-feira (13), desfilando pela tradicional Mocidade Unida da Mooca, escola que este ano pisa pela primeira vez na elite da folia paulistana. E não foi uma participação discreta, daquelas que passam batido no meio da bateria, não. Erika veio no terceiro carro alegórico, com uma faixa atravessando o peito escrita, em letras bem visíveis: “presidenta”.
O carro tinha como título “Trincheiras brasileiras – mulheres negras e revoluções”. Só o nome já dava o tom do que vinha pela frente. Era um recado, quase um manifesto. Ao lado da deputada, estavam nomes de peso como a escritora Conceição Evaristo, referência na literatura brasileira contemporânea, a artista visual Rosana Paulino e a empresária Eliane Dias, conhecida pela atuação firme no cenário cultural e social. Não era apenas um desfile, parecia um encontro simbólico de mulheres que, cada uma a seu modo, já travaram muitas batalhas.
No centro da alegoria, uma mãe de santo com faixa presidencial chamava atenção. A imagem era forte, carregada de significado. Em tempos em que o debate político anda cada vez mais acirrado — basta ligar a TV ou abrir as redes sociais para perceber — a cena provocou aplausos, mas também olhares curiosos. Logo atrás, uma bandeira com o rosto da vereadora Marielle Franco e a frase “Marielle presente!” arrancou gritos da arquibancada. O nome de Marielle, assassinada em 2018 no Rio de Janeiro, segue ecoando como símbolo de resistência. E no carnaval, que mistura festa e crítica social, isso ganha outra dimensão.
A Mocidade Unida da Mooca apostou no enredo “Gèlèdés – Agbára Obìnrin”, uma referência direta ao Geledés – Instituto da Mulher Negra, fundado em 1988. O tema exaltou a força da mulher negra, sua espiritualidade, sua luta e sua potência. Foi um desfile carregado de cores vibrantes, muito dourado, muito vermelho, tecidos esvoaçantes e uma bateria que não deixou o ritmo cair. Teve momento que a arquibancada inteira levantou. E não é exagero.
Erika, que já é uma das vozes mais ativas do Congresso Nacional, parecia confortável ali. Sorria, acenava, sambava no seu ritmo — sem exageros, mas também sem timidez. A faixa de “presidenta” não passou despercebida. Em ano pré-eleitoral, qualquer gesto vira leitura política. Alguns viram como provocação, outros como afirmação de representatividade. A verdade é que o carnaval sempre foi palco de recados, ainda que embalados pelo som do surdo e do tamborim.
A escola, estreante no Grupo Especial, tinha uma missão complicada: além de encantar, precisava cumprir o tempo rigoroso de 1h05. E foi por pouco. Literalmente nos segundos finais, a agremiação cruzou os portões do Anhembi. Teve gente prendendo a respiração. Mas deu certo. Missão cumprida, pelo menos nesse quesito técnico.
No meio da euforia, dava pra sentir que não era só mais um desfile. Era também uma afirmação. De identidade, de memória, de luta. O carnaval de São Paulo, que a cada ano cresce em estrutura e visibilidade, mostrou mais uma vez que vai muito além do brilho e das plumas. Ele fala de política, de história e de futuro — mesmo que nem todo mundo goste dessa mistura.
No fim das contas, entre confetes e discursos silenciosos, a imagem que fica é a de um carro alegórico que virou quase um palanque simbólico. E de uma noite que, com certeza, ainda vai render conversa nos próximos dias. Porque no Brasil, até o samba carrega opinião. E carrega mesmo.