O desfile da Acadêmicos de Niterói, na noite deste domingo (15), transformou a Marquês de Sapucaí em um verdadeiro palco político-cultural. No meio de plumas, tambores e alegorias gigantes, a escola decidiu prestar homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). E claro, isso deu o que falar.
A avenida, que já viu de tudo um pouco — de críticas sociais afiadas a exaltações históricas — virou cenário de um enredo que misturou emoção, memória e, inevitavelmente, debate político. Entre os artistas que pisaram forte na Sapucaí estavam Dira Paes, Fafá de Belém, Juliana Baroni, Paulo Vieira, Antônio Pitanga e Silvério Pereira. Um time de peso, diga-se de passagem. Alguns sambando, outros apenas marcando presença, mas todos ali reforçando o simbolismo do momento.



Lula acompanhou o desfile em um camarote, ao lado do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, e da primeira-dama Janja da Silva. Janja, aliás, era esperada como destaque em um dos carros alegóricos. A expectativa era grande, principalmente depois das imagens que circularam nas redes mostrando os bastidores da preparação. No entanto, de última hora, ela acabou sendo substituída por Fafá de Belém. Oficialmente, não houve grande explicação, mas nos corredores da Sapucaí o comentário era que a decisão teve relação com o clima político delicado.


E aí está o ponto. A homenagem aconteceu em pleno ano pré-eleitoral. Lula deve disputar a reeleição, e qualquer movimento, por menor que pareça, vira combustível para discussão nas redes sociais. No X (antigo Twitter), por exemplo, o assunto rapidamente entrou nos trending topics. Teve gente chamando de celebração merecida, outros criticando o que consideraram exposição política antecipada. O Brasil segue dividido, e isso não é novidade pra ninguém.


Nos bastidores, segundo fontes ligadas ao governo, houve orientação clara para evitar qualquer gesto, fala ou postagem que pudesse ser interpretada como propaganda eleitoral antecipada. Nada de discursos inflamados, nada de slogans. Era pra ser apenas cultura, carnaval, samba no pé. Mas a linha entre cultura e política, especialmente no Brasil, é fina, quase invisivel às vezes.


Eu, particularmente, acho curioso como o carnaval sempre foi um espaço de crítica e posicionamento. Basta lembrar dos desfiles históricos que já cutucaram ditadura, desigualdade, racismo estrutural. A própria Sapucaí já foi palco de protestos velados e diretos. Então, quando surge uma homenagem a uma figura política em atividade, o debate é praticamente inevitavel.

Ao mesmo tempo, não dá pra ignorar que Lula é uma figura central da história recente do país. Amado por uns, rejeitado por outros, mas inegavelmente protagonista. A Acadêmicos de Niterói apostou nessa força simbólica. O público nas arquibancadas reagiu com aplausos em vários momentos, embora também fosse possivel perceber alguns olhares desconfiados.

A presença de Eduardo Paes no camarote também chamou atenção. O prefeito, que tem forte ligação com o carnaval carioca, parecia confortável, sorridente, como quem sabe que a festa é maior do que qualquer tensão política. E talvez seja mesmo. O carnaval tem essa capacidade de engolir polêmicas e transformar tudo em espetáculo.
No fim das contas, o desfile cumpriu seu papel: gerou emoção, repercussão e conversa. Se era essa a intenção, missão cumprida. O samba ecoou, as alegorias brilharam sob as luzes da Sapucaí e, por algumas horas, o país parou para assistir. Entre críticas e elogios, ficou evidente que, no Brasil, política e cultura caminham lado a lado, gostem ou não. E em ano pré-eleitoral, qualquer batuque pode soar mais alto do que deveria.