Embora tenha três décadas de estrada no jornalismo, o nome de Malu Gaspar talvez nunca tenha sido tão comentado — e também tão atacado — quanto nos últimos meses. A repórter, que sempre circulou com respeito nos bastidores de Brasília e das redações do Rio e de São Paulo, virou assunto nas redes sociais por causa das reportagens envolvendo o chamado caso do Banco Master. E, no meio da história, apareceram figuras de peso do Supremo.
Entre elas, ministros do Supremo Tribunal Federal. Nomes como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli passaram a ser citados no noticiário relacionado ao banco. Foi aí que a temperatura subiu.
Em dezembro do ano passado, Malu publicou em sua coluna no jornal O Globo uma informação que caiu como bomba em certos grupos políticos. Segundo ela, Moraes teria conversado ao menos quatro vezes com o diretor do Banco Central, Gabriel Galípolo, sobre o caso. A revelação, tratada como bastidor de poder — que é a especialidade dela — incendiou o debate.
A partir dali, o que era discussão virou ataque. Principalmente nas redes sociais, onde tudo ganha proporções meio descontroladas. Perfis alinhados à esquerda, muitos deles admiradores de Moraes por sua atuação firme contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, passaram a criticar duramente a jornalista. Teve de tudo: questionamento sobre a apuração, insinuações pessoais e, infelizmente, comentários com tom misógino. Não é novidade no Brasil de 2026, mas ainda choca.
O clima ficou tão pesado que a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo resolveu se manifestar. Em nota pública, a entidade repudiou os ataques direcionados à profissional. O texto destacou algo que muita gente já percebeu faz tempo: mulheres jornalistas que investigam pessoas em posições de poder costumam virar alvo preferencial de campanhas de descredibilização. Segundo a Abraji, esse tipo de ataque virou quase rotina nos últimos anos.
E aqui vale uma pausa mais pessoal. Quem acompanha jornalismo político sabe que não é fácil publicar informação sensível envolvendo ministros do Supremo ou figuras do Banco Central. É mexer com estruturas muito fortes. Pode-se concordar ou discordar da linha editorial, mas não dá pra negar que exige coragem. E também método.
Mas afinal, quem é Malu Gaspar além da polêmica do momento?
A jornalista tem 51 anos e se formou na Universidade de São Paulo, a tradicional USP. Na carreira, passou por veículos de peso. Foi editora da revista Veja no Rio de Janeiro, numa época em que a publicação ainda tinha enorme influência no debate nacional. Também chefiou a revista Exame na capital fluminense. Trabalhou na revista Piauí, conhecida pelo estilo mais literário e investigativo, e integrou por três anos o time do podcast Foro de Teresina, que analisa os bastidores da política brasileira com uma pegada mais descontraída, mas sem perder profundidade.
Como autora, lançou dois livros que ajudaram a consolidar sua reputação. Em “Tudo ou Nada”, contou os bastidores da ascensão e queda do empresário Eike Batista e do império do grupo X. Já em “A Organização”, mergulhou no escândalo da Odebrecht, detalhando um dos maiores casos de corrupção da história recente do país.
No fim das contas, o episódio do Banco Master mostra como o ambiente político e digital anda eletrico, quase sempre no limite. Uma reportagem vira trincheira ideológica em questão de horas. E jornalistas — especialmente mulheres — acabam pagando um preço alto por fazer o próprio trabalho.
Pode-se discutir a interpretação dos fatos, o timing da publicação, até mesmo a forma. Isso faz parte do jogo democrático. O que não deveria fazer parte é o ataque pessoal. Porque quando a crítica vira ofensa, quem perde é o debate público. E isso, goste-se ou não da Malu, atinge todo mundo.