A Acadêmicos de Niterói amargou o último lugar na apuração do Grupo Especial do carnaval do Rio de Janeiro, realizada nesta quarta-feira (18), e acabou rebaixada logo em seu ano de estreia na elite. A escola levou para a Marquês de Sapucaí um enredo em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas a ousadia não foi suficiente para convencer os jurados — e muito menos garantir permanência entre as grandes.
O resultado caiu como um balde de água fria na comunidade. Quem acompanhou a apuração viu que as notas não vieram como o esperado. Foram apenas duas notas 10 em todos os quesitos. Muito pouco para quem sonhava alto. A Acadêmicos terminou no fim da tabela, e o sonho virou frustração ali, ao vivo, diante das câmeras e de milhares de torcedores que seguravam a respiração a cada décimo anunciado.
O enredo, intitulado Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil, percorreu a trajetória do presidente desde a infância pobre no Nordeste até a chegada ao Palácio do Planalto. A narrativa apostou na emoção, trazendo referências à seca, à migração e à luta sindical no ABC Paulista. Teve gente que se arrepiou. Teve gente que torceu o nariz. Carnaval é isso também, né?
A comissão de frente apresentou uma encenação da rampa do Palácio do Planalto, numa clara alusão à posse presidencial. Em tom crítico, o desfile também alfinetou adversários políticos de Lula. O ex-presidente Michel Temer foi citado de forma simbólica, mas o principal alvo foi Jair Bolsonaro, retratado como o palhaço Bozo em diferentes momentos. A sátira arrancou aplausos de um lado da arquibancada e críticas do outro. O clima, como já era esperado, ficou dividido.
E não parou por aí. Uma das alas que mais repercutiu foi a de número 22, batizada de “Neoconservadores em conserva”. Com fantasias em formato de lata, a escola ironizou figuras associadas ao conservadorismo: fazendeiro, socialite, defensores da ditadura militar e até evangélicos foram representados. A crítica foi ácida. Alguns consideraram corajosa, outros falaram em exagero. Nas redes sociais, o debate pegou fogo poucas horas depois do desfile.
Após o anúncio do rebaixamento, a primeira-dama Janja da Silva se manifestou no Instagram. Ela publicou um trecho do samba-enredo nos stories: “Lute pra vencer, aceite se perder. Se o ideal valer, nunca desista”. A frase soou como recado de resistência, talvez um consolo à comunidade da escola. Em seguida, Janja repostou uma mensagem da própria agremiação: “a arte não é para os covardes”. A postagem foi vista por apoiadores como gesto de solidariedade, mas também gerou comentários críticos.
A verdade é que a Acadêmicos de Niterói apostou alto. Estrear no Grupo Especial já é, por si só, uma pressão enorme. Escolher um enredo político, em tempos de polarização ainda latente no Brasil, foi uma decisão arriscada. O carnaval carioca sempre teve espaço para crítica social, isso não é novidade. Mas o termômetro anda sensível. Qualquer faísca vira incêndio digital.

Durante a apuração, dava pra perceber o semblante tenso dos integrantes. Cada nota abaixo do esperado era recebida com silêncio, às vezes com lágrimas. Carnaval não é só festa; é trabalho de um ano inteiro, é comunidade envolvida, é dinheiro contado, é sonho. E quando o resultado não vem, dói. Dói mesmo.

Agora, a escola terá que se reorganizar para desfilar na Série Ouro no próximo ano. O rebaixamento pesa, mas também pode servir de aprendizado. Já vimos outras agremiações caírem e voltarem mais fortes. O tempo dirá se a Acadêmicos de Niterói conseguirá transformar a queda em impulso.
No fim das contas, ficou a sensação de que o desfile entrou para a história — não exatamente pelo resultado, mas pela coragem de abordar um tema tão espinhoso em plena Sapucaí. Entre aplausos e vaias, o que ninguém pode negar é que a escola não passou despercebida. E, no carnaval, às vezes isso já é alguma coisa.