Quase 30 anos depois da tragédia que tirou do mapa os meninos do Mamonas Assassinas, o nome de Valéria Zoppello ainda provoca um certo aperto no peito de muita gente. Pra quem viveu os anos 90 — ou pelo menos ouviu falar — é impossível não lembrar do furacão que foi a banda liderada por Dinho. E, junto com ele, vinha sempre a imagem da namorada jovem, discreta, que acabou ficando marcada na memória coletiva como “a viúva eterna”.
Mas a vida, como todo mundo sabe, não para. E Valéria também não parou.
Hoje, aos 52 anos, ela leva uma rotina bem diferente dos tempos em que era constantemente lembrada pela relação com o vocalista. Mora na Serra da Cantareira, em São Paulo, cercada de verde por todos os lados. Aliás, quem já subiu a serra sabe o silêncio que tem lá, quebrado só por passarinhos e vento batendo nas árvores. Nada a ver com palco, gritaria e luz piscando.
Nos últimos anos, Valéria decidiu apostar numa paixão antiga e transformou isso em negócio. Virou dona de orquidário. Sim, orquídeas. Delicadas, exigentes, cheias de personalidade — quase uma metáfora da própria vida dela. Pelas redes sociais, ela já mostrou um pouco da rotina entre mudas, vasos e encomendas. Recebe pedidos pela internet e envia flores para todo o Brasil. Pequeno negócio? Talvez. Mas daqueles que enchem o peito de orgulho.
E não pense que essa foi a primeira reinvenção dela. Ao longo das décadas, Valéria experimentou de tudo um pouco: foi modelo, tentou carreira como atriz, se aventurou no automobilismo como piloto e também trabalhou como fotógrafa. Uma trajetória versátil, meio inquieta, de quem nunca quis ficar parada numa única definição.
Em janeiro de 2024, logo depois de completar 50 anos (uma idade que mexe com a cabeça de qualquer pessoa, diga-se), ela resolveu falar abertamente sobre um rótulo que carregou por tempo demais: o de “eterna viúva”. Em uma postagem nas redes sociais, foi direta, sem rodeios.
Disse que sim, é feliz. Que sim, ainda lembra de Dinho — e como não lembraria? — mas que não vive mais de luto. Segundo ela, o luto precisa ter prazo de validade. Caso contrário, vira prisão. E ninguém que parte gostaria de ver quem ficou preso na dor para sempre. Foi mais ou menos isso que ela escreveu, com palavras firmes e maduras.
O desabafo também serviu para cortar alguns boatos que insistem em circular de tempos em tempos. Aquela história de que ela nunca mais amou ninguém? “Bobagem”, resumiu. Contou que teve outros relacionamentos, conheceu homens importantes na sua jornada, cada um no seu tempo. Vida real, como a de qualquer outra pessoa.
Sobre maternidade, outro tema que sempre aparece quando falam dela, Valéria foi honesta. Disse que, em parte, não ter filhos foi escolha. As profissões que seguiu, segundo explicou, não permitiriam que uma criança fizesse parte daquela rotina intensa. Não foi drama, nem justificativa exagerada. Foi só uma constatação.

O curioso é perceber como o público brasileiro ainda guarda carinho por ela, mesmo depois de tanto tempo. Talvez porque a história dos Mamonas tenha ficado congelada na memória afetiva do país. Talvez porque todo mundo tenha sentido que aquela tragédia foi injusta demais.
Mas Valéria não ficou congelada no tempo. Ela cresceu, mudou, errou, acertou, tentou de novo. Hoje vive longe dos holofotes, mas não vive escondida. Está ali, cultivando flores, respondendo seguidores, cuidando da própria paz.
E no fim das contas, talvez essa seja a maior conquista: não ser lembrada apenas pelo que perdeu, mas pelo que construiu depois. Porque seguir em frente, mesmo quando o mundo te enxerga como personagem de uma história antiga, é um ato de coragem que pouca gente reconhece — mas que merece ser contado.