A Crise Energética e o Desafio da Enel: Uma Análise Profunda
A recente declaração do CEO da Enel no Brasil, onde ele mencionou que apenas “Jesus Cristo” poderia evitar apagões devido à queda de árvores em São Paulo, trouxe à tona uma série de questões importantes sobre a capacidade da empresa em lidar com crises. Essa afirmação, embora feita em um tom retórico, chegou em um momento crítico, onde a pressão regulatória sobre a empresa está em alta, tanto no Brasil quanto no Chile.
Eventos Climáticos e suas Consequências
O Chile, por exemplo, enfrentou em agosto de 2024, tempestades severas que deixaram cerca de 794 mil lares sem energia em Santiago. A situação se agravou, pois no dia seguinte ainda havia aproximadamente 580 mil consumidores sem eletricidade. O restabelecimento da energia levou vários dias e, em alguns casos, ultrapassou uma semana. Isso resultou em multas significativas por parte do regulador chileno, que aplicou uma penalidade de cerca de US$ 19 milhões, destacando falhas de manutenção e atrasos na resposta às crises. Para piorar a situação, uma segunda multa de US$ 8,2 milhões foi imposta à Enel.
No Brasil, a situação não é muito diferente. A ANEEL, a agência reguladora de energia, também impôs multas à Enel Distribuição São Paulo por falhas no serviço e descumprimento de obrigações em episódios de interrupção de energia. O total dessas multas já chega a impressionantes R$ 374 milhões. Isso mostra que a pressão não é apenas retórica, mas uma realidade que a empresa precisa enfrentar com urgência.
Indicadores de Qualidade e Desempenho
Embora os indicadores anuais de continuidade estejam dentro dos limites contratuais, a ANEEL mudou seu foco, passando a avaliar não apenas a média de interrupções, mas também a capacidade da empresa de lidar com eventos climáticos extremos. O DEC (Duração Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora) e o FEC (Frequência de Interrupção por Unidade Consumidora) são métricas que, embora estejam dentro dos padrões, não são suficientes diante da gravidade das tempestades que têm ocorrido.
Relatórios técnicos indicam que a resposta da Enel foi insatisfatória durante eventos recentes, com equipes mobilizadas abaixo do necessário e fragilidades nos planos de contingência. A discussão agora se concentra na capacidade da empresa de enfrentar episódios de “cauda”, que são eventos raros, mas que estão se tornando mais frequentes devido às mudanças climáticas.
Semelhanças entre Brasil e Chile
As semelhanças entre os dois países são claras. Redes elétricas aéreas extensas, alta densidade urbana e vegetação exposta tornam as distribuidoras vulneráveis a quedas de árvores e ventos fortes. O debate sobre esses eventos não é apenas técnico, mas ganhou uma dimensão institucional. Pergunta-se não mais se esses eventos vão ocorrer, mas sim se a resposta da Enel é proporcional ao risco que esses eventos representam.
Impacto Econômico e Percepção de Risco
Essa mudança de abordagem também altera a percepção de risco em torno do ativo da Enel. A distribuição de energia é um negócio que depende de retornos regulados e de estabilidade institucional. Com multas acumuladas e monitoramento intensificado, o fluxo de caixa da empresa se torna mais suscetível a contingências regulatórias. Isso pode exigir um aumento no investimento em infraestrutura, digitalização e manejo preventivo de vegetação.
Preparação para um Futuro Incerto
A declaração do CEO levanta uma questão fundamental: a Enel está realmente preparada para um regime climático mais severo? Ou ainda opera sob uma lógica de eventos que costumavam ser considerados excepcionais? No Chile, essa incerteza já se materializou em multas e ações coletivas de consumidores. Em São Paulo, a ANEEL sinaliza que a conformidade com a média anual pode não ser suficiente.
Para os investidores, o problema não é apenas um rompimento contratual iminente, mas a possibilidade de um aumento no prêmio de risco associado à concessão. Em um cenário de mudanças climáticas intensas, a resiliência se transforma de um atributo reputacional em uma variável financeira essencial.
A Resposta da Enel
A Enel, por sua vez, afirma que está vendo melhorias nos indicadores de interrupções de energia e que, em 2025, esses números foram melhores do que as metas regulatórias. Além disso, a companhia contestou as declarações do prefeito Ricardo Nunes sobre as interrupções, alegando que mais de 90% das falhas foram causadas por fatores ambientais, como quedas de árvores devido a ventos fortes.
Esse cenário complexo exige uma reflexão profunda sobre como as empresas de energia estão se preparando para o futuro. O que está em jogo não é apenas a confiabilidade do serviço, mas também a confiança dos consumidores e investidores em um mundo cada vez mais propenso a eventos climáticos extremos.