A primeira-dama Janja Lula contou, nesta terça-feira (3/3), em entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, que foi vítima de assédio duas vezes desde que começou o atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A fala veio de maneira direta, quase crua, sem muitos rodeios — e talvez por isso tenha causado tanto impacto.
“Eu fui assediada nesse período duas vezes. Eu sendo primeira-dama, estando nos lugares que me acho segura, e mesmo assim fui assediada”, disse Janja. Ela não entrou em detalhes sobre quando ou onde os episódios aconteceram. Preferiu ampliar o foco. Trouxe a discussão para algo maior, mais estrutural, que atinge mulheres de todas as idades e classes sociais.
A reflexão que ela fez ao vivo foi simples, mas incômoda. Se nem mesmo uma mulher que ocupa a posição de primeira-dama da República, cercada por equipe de segurança, assessores, câmeras e protocolos, está totalmente protegida, o que dizer das milhares de brasileiras que pegam ônibus tarde da noite, que voltam sozinhas do trabalho ou da faculdade? “Imagina uma mulher no ponto de ônibus às 22h? A gente não tem segurança em lugar nenhum”, afirmou. E essa frase ficou ecoando.
O tema surgiu durante uma edição especial do programa, que abordou o combate à violência doméstica e ao feminicídio no Brasil — um problema antigo, mas que segue atual e doloroso. Dados recentes mostram que os índices continuam altos em vários estados, apesar das campanhas e leis mais rígidas. Parece que a violência contra a mulher virou uma espécie de crise permanente, dessas que a gente se acostuma a ver no noticiário, mas que nunca deveriam ser normalizadas.
O portal Metrópoles informou que procurou a assessoria da primeira-dama para saber se houve denúncia formal dos casos de assédio. Até o momento, não havia confirmação pública sobre isso. Caso haja posicionamento, a reportagem deve ser atualizada. Esse detalhe, inclusive, levanta outro debate: muitas mulheres não denunciam por medo, vergonha ou por acreditarem que não vai dar em nada. Não é simples.
O programa foi apresentado por Cissa Guimarães e também contou com a participação de Daniela Grelin, da No More Foundation, além de Antonia Pellegrino, da Empresa Brasil de Comunicação. O tom da conversa foi sério, mas ao mesmo tempo necessário. Não era um assunto leve, nem poderia ser.
Durante a entrevista, Janja também falou sobre o chamado Pacto dos Três Poderes contra o Feminicídio, lançado pelo governo federal em fevereiro. A proposta envolve articulação entre Executivo, Legislativo e Judiciário para tentar enfrentar o problema de forma mais coordenada. A ideia é acelerar medidas protetivas, fortalecer redes de apoio, ampliar campanhas educativas e responsabilizar agressores com mais rigor. No papel, parece um avanço importante. Na prática, o desafio é enorme.
O Brasil já tem leis consideradas avançadas, como a Lei Maria da Penha. Mas ainda assim os números assustam. É como se existisse uma distância entre o que está escrito na lei e o que acontece na vida real. E talvez seja exatamente essa distância que iniciativas como o pacto tentam diminuir.
O relato de Janja não traz só uma denúncia pessoal. Ele expõe uma fragilidade coletiva. Mostra que o problema não escolhe cargo, não respeita posição social, não faz distinção. Ao falar publicamente sobre o que viveu, ela joga luz sobre uma realidade que muitas preferem silenciar — às vezes por dor, às vezes por medo.
No fim das contas, fica uma pergunta difícil de engolir: se nem quem está no centro do poder se sente totalmente segura, o que resta para as outras? Talvez a resposta passe por políticas públicas, educação, mudança cultural. Talvez demore. Mas o assunto, definitivamente, não pode mais ser tratado como algo isolado. É estrutural. E urgente.
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