A morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana continua cercada de dúvidas e detalhes que, aos poucos, vão aparecendo no inquérito da Polícia Civil. O caso aconteceu no dia 18 de fevereiro, dentro do apartamento onde ela morava com o marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, no bairro do Brás, região central de São Paulo.
Quem trouxe um novo elemento para a investigação foi a inspetora de condomínio Fabiana Pereira. Em depoimento aos investigadores, ela contou ter presenciado momentos tensos no corredor do prédio, logo após o disparo que atingiu a policial. O relato dela acabou chamando atenção principalmente por causa de uma frase dita pelo coronel naquele momento.
Segundo Fabiana, quando as equipes de resgate chegaram ao apartamento e começaram a atender Gisele, uma policial comentou que a vítima ainda apresentava sinais de vida. Foi então que, de acordo com a inspetora, o oficial respondeu algo que deixou todo mundo meio sem reação: ele teria dito que, “com o tiro que ela levou, não sobreviveria”.
A inspetora contou que subiu até o andar depois de perceber a movimentação de socorristas e policiais dentro do prédio onde trabalha. Ao chegar no corredor, encontrou o coronel andando de um lado para o outro, visivelmente agitado. Ele estava sem camisa e, segundo ela relatou à polícia, não tinha manchas de sangue nas mãos nem pelo corpo — detalhe que acabou sendo anotado no depoimento.
Ainda conforme o relato, o oficial disse naquele momento que a esposa havia “se dado um tiro”. Curiosa e preocupada com o que estava acontecendo, Fabiana se aproximou da porta do apartamento. Foi quando viu Gisele caída no chão, com bastante sangue ao redor, enquanto os socorristas tentavam fazer manobras para reanimá-la. A cena, segundo ela, era bem forte.
Enquanto o atendimento acontecia dentro do imóvel, o coronel ficou no corredor falando ao telefone. Fabiana disse que permaneceu por perto e percebeu que ele conversava com alguém a quem chamava de “excelência”. Depois se descobriu que provavelmente se tratava do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo. Os dois seriam amigos.
Durante a ligação, de acordo com o depoimento, o coronel repetia uma versão específica do que teria acontecido. Ele dizia que estava no banho quando ouviu um barulho estranho. Inicialmente pensou que fosse uma porta batendo. Ao sair do banheiro, teria encontrado a esposa já caída na sala e ferida na cabeça.
Pouco tempo depois dessa conversa por telefone, uma policial se aproximou dele e comentou que Gisele ainda estava viva e sendo atendida. Foi justamente nesse instante que teria ocorrido a reação citada pela inspetora.
A ocorrência foi registrada por volta das 7h57 da manhã, após o Centro de Operações da Polícia Militar receber a informação de que uma policial havia sido baleada dentro de casa. Uma vizinha do mesmo andar também contou aos investigadores que acordou com o som de um disparo por volta das 7h30.
Os socorristas chegaram rápido e iniciaram tentativas de reanimação ainda no apartamento. Depois, Gisele foi levada em estado gravíssimo para o Hospital das Clínicas. Apesar do esforço das equipes médicas, ela não resistiu e morreu às 12h04, segundo o atestado de óbito obtido pela reportagem.
No momento do disparo, a única pessoa que estava dentro do apartamento era o próprio marido da vítima.
Em depoimento à polícia, o coronel reafirmou a versão de que estava no banho quando tudo aconteceu. Ele disse que, ao sair do banheiro, encontrou a esposa caída no chão com sangramento intenso na cabeça. Também afirmou que a arma usada — uma pistola Glock calibre .40 — estava nas mãos dela. O armamento, segundo ele, fazia parte do acervo da Polícia Militar e estava registrado em seu nome, guardado em um armário do quarto.
Alguns detalhes, porém, começaram a levantar dúvidas. Testemunhas disseram que o oficial estava com roupas secas e não havia marcas de água pelo chão do apartamento, algo que poderia indicar se alguém realmente havia saído do banho naquele momento.
Por causa dessas inconsistências, o caso que inicialmente foi tratado como possível suicídio passou a ser investigado como morte suspeita. O inquérito está sendo conduzido no 8º Distrito Policial, no Brás, enquanto a Polícia Militar do Estado de São Paulo também abriu um procedimento interno por meio da corregedoria.
Agora, os investigadores analisam laudos periciais, imagens das câmeras de segurança do prédio e também os áudios das ligações feitas pelo coronel naquele dia. A ideia é entender exatamente o que aconteceu dentro do apartamento naquela manhã que terminou em tragédia. As circunstâncias do disparo ainda seguem sob investigação.