A decisão saiu de forma discreta, quase sem barulho, mas envolve valores gigantescos. A 7ª Vara Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal determinou o bloqueio de mais de R$ 562 milhões ligados ao Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da Força Sindical, o Sindnapi. A medida também atinge diretamente o presidente da entidade, o sindicalista Milton Baptista de Souza Filho, conhecido no meio sindical como “Milton Cavalo”.
A decisão foi assinada pelo juiz federal José Márcio da Silveira e Silva na última quinta-feira, dia 5. O processo corre em segredo de Justiça, o que significa que muitos detalhes ainda não estão acessíveis ao público. Mesmo assim, as informações que vieram à tona já são suficientes para causar bastante repercussão — principalmente no meio político e sindical.
O Sindnapi tem na vice-presidência José Ferreira da Silva, mais conhecido como Frei Chico. Ele é irmão mais velho do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar disso, o nome dele não aparece na decisão judicial e, até agora, não foi alvo das medidas cautelares determinadas pela Justiça.
Mesmo assim, a ligação familiar acabou chamando atenção. Em Brasília, onde tudo vira debate político em minutos, muita gente comentou sobre o assunto nos bastidores. Não é incomum, inclusive, que casos assim acabem ganhando mais dimensão justamente por causa dessas conexões.
De acordo com informações apresentadas pelo Instituto Nacional do Seguro Social, o sindicato e seu presidente estariam envolvidos em um esquema considerado estruturado para desviar dinheiro de aposentados e pensionistas. O método, segundo as investigações iniciais, passaria por acordos de cooperação técnica que teriam sido usados de forma irregular.
Esses acordos permitiriam descontos diretamente nos benefícios pagos aos aposentados. Até aí, em teoria, isso pode acontecer legalmente, desde que haja autorização do beneficiário. O problema — e é aí que entra a suspeita — é que muitas dessas autorizações podem simplesmente não existir ou ter sido criadas depois.
Segundo os investigadores, documentos enviados ao INSS em junho e julho de 2024 levantaram uma pulga atrás da orelha. Isso porque os papéis surgiram somente depois que o instituto pediu comprovação das autorizações. Em outras palavras: a documentação apareceu depois da cobrança oficial. Para alguns técnicos envolvidos na análise, isso levanta a hipótese de que parte dessas permissões tenha sido forjada.
A investigação também menciona movimentações financeiras bastante altas. De acordo com o que foi apontado no processo, houve registros de operações suspeitas que ultrapassam R$ 2,5 bilhões. É dinheiro demais, e isso acabou chamando a atenção das autoridades.
O juiz destacou na decisão algo que chamou de “incremento patrimonial incompatível”. Em termos mais simples, significa que o crescimento do patrimônio de alguns investigados não combina com a renda que eles oficialmente teriam. Esse tipo de situação costuma ser um sinal de alerta em investigações financeiras.
Além disso, os autos apontam possíveis tentativas de ocultação de patrimônio. Isso pode acontecer, por exemplo, quando bens são colocados em nome de terceiros ou movimentados de maneira a dificultar o rastreamento do dinheiro. Não quer dizer que tudo esteja provado ainda — afinal, o processo segue em andamento — mas são pontos que pesaram na decisão de bloquear os valores.
O bloqueio de mais de R$ 562 milhões tem justamente esse objetivo: impedir que recursos eventualmente ligados ao esquema desapareçam enquanto as investigações continuam. Na prática, é uma forma de preservar o dinheiro até que a Justiça consiga analisar tudo com mais calma.
Nos corredores de Brasília, o caso já começa a ser comentado como mais um episódio que mistura política, sindicatos e recursos da Previdência — um tema sempre sensível no país. Afinal, estamos falando de dinheiro que, em última instância, pertence a aposentados e pensionistas.
Por enquanto, o processo segue em segredo de Justiça e novas informações devem aparecer aos poucos. Até lá, muita coisa ainda pode mudar. Mas uma coisa é certa: quando aparecem números na casa dos bilhões e um sindicato nacional no meio da história, dificilmente o assunto passa despercebido. E, pelo visto, esse caso ainda vai dar o que falar nas próximas semanas.