Última entrevista de jovem que passou por eutanásia são distorcidas e viralizam

A história de Noelia Castillo acabou ganhando uma repercussão enorme depois que ela apareceu na televisão poucas horas antes de passar pelo processo de eutanásia. A entrevista foi ao ar no programa “Y ahora Sonsoles”, da Antena 3, e rapidamente virou assunto nas redes sociais. Em questão de minutos, já tinha gente comentando de tudo: mensagens de apoio, críticas pesadas e até algumas versões da história que, depois, foram colocadas em dúvida.

Noelia, que ficou paraplégica após uma tentativa de suicídio em 2022, resolveu falar abertamente sobre a própria vida. Durante a entrevista, ela contou detalhes do que passou e explicou por que decidiu pedir a chamada “prestação de ajuda para morrer”. Foi um relato forte, desses que mexem com quem tá assistindo, sabe? Só que, como costuma acontecer hoje em dia, nem tudo que circulou depois era exatamente fiel aos fatos.

Um dos pontos que mais chamou atenção nas redes foi uma história sobre uma suposta agressão sexual que teria acontecido enquanto ela estava sob tutela dos serviços sociais da Generalitat. Segundo essas publicações, o caso envolveria menores estrangeiros não acompanhados. Essa versão foi compartilhada por vários perfis, inclusive alguns com bastante alcance.

Mas aí entra a parte que muita gente ignorou. De acordo com documentos clínicos e administrativos do caso, não existe nenhum registro desse tipo de ocorrência nos centros onde Noelia viveu entre 2015 e 2019. Fontes ligadas à Direção-Geral de Prevenção e Proteção da Infância e Adolescência confirmaram que não há relatos de agressão sexual nesse período. Ou seja, a história que viralizou não bate com os registros oficiais.

Na entrevista, Noelia até mencionou episódios difíceis, mas bem diferentes do que foi espalhado online. Ela falou de três situações distintas: uma envolvendo um ex-companheiro com quem teve um relacionamento de quatro anos, outra em uma discoteca onde dois homens teriam tentado abusar dela, e uma terceira, também em ambiente noturno, onde disse ter sido agredida por três pessoas. Esse último episódio, segundo ela, aconteceu poucos dias antes da tentativa de suicídio, em outubro de 2022, quando ela tinha 21 anos.

Outro ponto que gerou bastante debate foi a ideia de que o caso dela seria a “primeira eutanásia por depressão” na Espanha. Só que isso também não é bem assim. Os relatórios médicos indicam que o pedido foi aprovado principalmente por conta das sequelas físicas graves da paraplegia e do sofrimento constante que ela enfrentava.

É verdade que Noelia apresentava sintomas depressivos e outros transtornos, como ansiedade, TOC e até traços de personalidade borderline. Mas, segundo os especialistas, nada disso comprometia a capacidade dela de tomar decisões. Em outras palavras, ela sabia exatamente o que estava fazendo.

A autorização para a eutanásia foi dada em julho de 2024 pela Comissão de Garantia e Avaliação da Catalunha. O órgão considerou que ela vivia uma situação irreversível, com dores crônicas e uma dependência muito grande para atividades básicas. Depois disso, ainda houve decisões judiciais que confirmaram que todo o processo estava dentro da lei.

Vale lembrar que o procedimento ficou parado por mais de um ano por causa de uma ação movida pelo pai dela, que questionava sua capacidade de decidir. Mesmo assim, após avaliações, os especialistas concluíram que Noelia tinha plena consciência da escolha.

Por fim, também surgiram comentários tentando minimizar a condição física dela, principalmente depois que algumas pessoas viram que ela conseguia realizar certas atividades com ajuda. Só que os relatórios médicos são bem claros: a lesão na medula, na altura da L3, causou paraplegia completa, além de dores neuropáticas, perda de sensibilidade, incontinência e necessidade de cuidados constantes.

Ela passou por tratamento intensivo, inclusive em um hospital de Tarragona e depois na Clínica Guttmann, mas as sequelas foram consideradas permanentes. Em depoimento, a própria Noelia disse que a dor era constante e afetava tudo na vida dela.

No fim das contas, o caso virou um grande debate público, cheio de emoção, opiniões e, também, desinformação. E talvez isso diga mais sobre o momento atual, onde tudo se espalha rápido demais, do que sobre a própria decisão dela.



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