O clima no STF tava daqueles, pesado mesmo, quase dava pra sentir no ar. Depois de ter sido praticamente esculachado pelos próprios colegas ao votar pela absolvição de Jair Bolsonaro no caso da chamada “trama golpista”, o ministro Luiz Fux resolveu não deixar barato. E olha… deu o troco.
Isso aconteceu durante um julgamento importante, que vai decidir se a eleição pro chamado mandato-tampão de governador do Rio de Janeiro vai ser direta ou indireta. Só que, no meio da discussão, o assunto acabou descambando pra outra coisa: a situação complicada — pra não dizer caótica — da política fluminense.
Um atrás do outro, ministros como Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Flávio Dino começaram a comentar o cenário do Rio. E não foi com palavras leves, não. Falaram de uma realidade onde, nos últimos anos, praticamente todo governador acabou preso ou afastado do cargo. Situação feia.
Teve até fala mais pesada. O decano comentou que teria recebido informação de um diretor da Polícia Federal de que “32 ou 34 parlamentares” da Assembleia Legislativa do estado receberiam mesada ligada ao jogo do bicho. É coisa séria. E ele ainda completou com um tom meio resignado: “Deus tenha piedade do Rio de Janeiro”.
Agora, abrindo um parêntese aqui — porque não dá pra ignorar — fica a dúvida: diante de uma denúncia desse nível, não caberia alguma atitude mais direta? Tipo cobrar investigação, algo concreto? Fecha parêntese.
Foi aí que Fux entrou na história de vez. Carioca raiz, daqueles com orgulho declarado da terra e cheio de conexões por lá, ele claramente se incomodou com o que foi dito. E não deixou quieto. Pelo contrário, resolveu rebater — e com força.
Disse que as falas dos colegas demonstravam um “profundo descrédito” generalizado em relação ao Rio de Janeiro. E aí veio o discurso mais longo, meio atravessado, mas cheio de recado nas entrelinhas. Segundo ele, talvez essa visão negativa exista porque alguns ministros chegaram ao Supremo depois de grandes escândalos nacionais.
Ele citou julgamentos como o do mensalão, a Lava Jato, além de casos mais recentes envolvendo o INSS e o Banco Master, pra argumentar que corrupção não é exclusividade do Rio. Em outras palavras: o problema é geral.
Fux ainda fez questão de destacar que existem, sim, bons políticos no estado. Gente que representa o Rio na Câmara e que, segundo ele, merece reconhecimento. Mas fechou com uma frase que soou quase como provocação: se esses políticos tiverem que “ir pro inferno”, não irão sozinhos — outras autoridades importantes iriam junto.
A essa altura, o recado já tava dado. E bem dado.
Agora, olhando de fora, duas coisas chamam atenção. A primeira é até meio curiosa: ver ministros envolvidos em polêmicas, ou cercados de questionamentos, fazendo discursos indignados sobre moralidade alheia. Soa, no mínimo, contraditório. Não chega a ser novidade, mas ainda assim chama atenção.
A segunda observação é mais prática. Esse movimento de Fux pode indicar um posicionamento futuro dentro do próprio STF. Existe a possibilidade de o plenário analisar a abertura de investigações contra outros ministros, como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, no contexto do chamado caso Master.
E, pelo que deu a entender, Fux pode votar a favor dessa abertura. Ou seja, o clima interno, que já não era dos melhores, tende a esquentar ainda mais.
No fim das contas, a impressão que fica é simples: dentro do Supremo, a tensão não é só institucional — é também pessoal. E quando isso acontece, as decisões acabam carregando mais do que apenas argumentos jurídicos. Tem emoção, tem disputa, tem recado.
E talvez, só talvez, o “inferno” citado ali não esteja tão distante assim… pelo menos não pra alguns.