A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais acendeu um alerta forte em Brasília e também levantou uma série de dúvidas sobre até onde Washington pode ir contra as facções brasileiras. O tema começou a ganhar força nos bastidores políticos nesta semana e já virou motivo de preocupação dentro do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A medida foi anunciada pelo governo do presidente Donald Trump, que colocou as duas facções nas listas de Terroristas Globais Especialmente Designados e também de Organizações Terroristas Estrangeiras. Na prática, isso permite que os EUA ampliem sanções financeiras e econômicas contra pessoas e empresas ligadas aos grupos criminosos. Mas uma pergunta começou a circular logo após o anúncio: existe risco de uma ação militar norte-americana envolvendo território brasileiro?
O portal Metrópoles procurou o Departamento de Estado dos Estados Unidos para entender se essa classificação abriria caminho para possíveis operações militares contra integrantes do PCC e do CV. A resposta dada pelos norte-americanos, no entanto, deixou margem pra diferentes interpretações e não foi totalmente objetiva.
Segundo um porta-voz da diplomacia dos EUA, a designação “não concede às Forças Armadas poderes adicionais além dos que elas já possuem”. A fala foi curta, meio diplomática demais, e acabou aumentando ainda mais as especulações em torno do assunto. O representante também afirmou que o governo americano “respeita as competências e atribuições” das autoridades brasileiras.
Mesmo assim, analistas de segurança internacional avaliam que existe sim um receio sobre possíveis impactos na soberania do Brasil. Isso porque situações parecidas já aconteceram em outros países da América Latina. O caso mais citado nos últimos dias é o da Venezuela.
Nos últimos anos, os EUA fizeram movimentos parecidos contra o chamado Cartel de Los Soles, grupo acusado de atuar no narcotráfico venezuelano. Depois das classificações e acusações, o Comando Sul dos Estados Unidos intensificou ações militares na região do Caribe e também no Oceano Pacífico. Desde setembro de 2025, mais de 50 embarcações foram atacadas pelos norte-americanos sob a justificativa de combater o tráfico internacional de drogas.
O problema é que o governo Trump nunca apresentou publicamente provas concretas ligando essas embarcações ao chamado “narcoterrorismo”, termo usado frequentemente pela Casa Branca. Meses depois dessas operações, os ataques acabaram evoluindo para uma ofensiva maior contra a Venezuela, culminando na captura e deportação do ex-presidente Nicolás Maduro, acusado de liderar o Cartel de Los Soles. Curiosamente, depois da prisão, parte das acusações acabou sendo enfraquecida pelo próprio Departamento de Justiça dos EUA.
Esse histórico passou a gerar preocupação entre autoridades brasileiras, principalmente porque o PCC e o Comando Vermelho possuem atuação internacional cada vez maior, inclusive em rotas ligadas ao tráfico de drogas na América do Sul. Nos bastidores do Palácio do Planalto, integrantes do governo temem que futuras ações americanas possam ultrapassar o campo econômico.
Por enquanto, porém, os sinais enviados por Washington apontam para medidas financeiras e comerciais. As sanções começam oficialmente em 5 de junho e devem atingir contas, patrimônios, empresas e interesses ligados às facções dentro dos Estados Unidos ou que tenham ligação com cidadãos norte-americanos.
Além disso, especialistas lembram que as chamadas sanções secundárias também podem afetar brasileiros que mantenham qualquer tipo de relação financeira ou comercial com integrantes das organizações. Isso inclui empresários, operadores financeiros e até pessoas investigadas por facilitar movimentações de dinheiro.
O assunto ainda deve gerar muita discussão diplomática nas próximas semanas. Enquanto o governo Lula tenta evitar aumento da tensão com os EUA, setores da oposição defendem ações mais duras contra o crime organizado. No meio desse cenário complicado, cresce o receio de que a guerra internacional contra facções criminosas possa acabar entrando em uma nova fase aqui na América Latina.