Foragido e procurado, Rabicó aparece em vídeo dando novas ordens ao CV

A Polícia Civil do Rio de Janeiro voltou a mirar um dos nomes mais antigos ligados ao tráfico no estado. Antônio Ilário Ferreira, mais conhecido como “Rabicó”, apareceu novamente no centro de uma investigação pesada da Operação Contenção, realizada nesta sexta-feira (29). Mesmo foragido desde 2019, segundo os investigadores, ele ainda seguiria dando ordens dentro do Comando Vermelho, uma das facções mais conhecidas do país.

A reportagem teve acesso a alguns áudios atribuídos ao traficante. Em uma das gravações, Rabicó orienta criminosos a roubarem somente carros novos. Nada de veículo velho ou popular demais. Na visão dele, carro antigo “passa batido” e não chama atenção financeira.

“Vamo pegar carro novo, zero bala, porra. Carro velho deixa passar”, diz ele no áudio, usando um tom bem descontraído, quase como alguém conversando numa mesa de bar. O detalhe que chama atenção é justamente a naturalidade com que o assunto é tratado.

De acordo com a Polícia Civil, Rabicó seria responsável por um esquema milionário de lavagem de dinheiro vindo do tráfico de drogas. A investigação aponta uma movimentação superior a R$ 453 milhões. O número impressiona até investigadores mais experientes, porque mostra o tamanho da estrutura financeira montada pela facção nos últimos anos.

Em outro trecho divulgado pela reportagem, o traficante demonstra irritação ao conversar com um comparsa conhecido como “Paulista”. O motivo seria uma disputa interna relacionada a distribuição de drogas em uma comunidade dominada pelo grupo criminoso.

Rabicó reclama que outros criminosos estariam lucrando dentro da área controlada por ele, enquanto os homens que enfrentam operações policiais diariamente ficariam sem parte do dinheiro.

“A boca aqui é minha”, dispara ele durante a conversa. Em seguida, reclama do risco constante de confronto com policiais enquanto outros entram apenas para vender droga e ir embora com o lucro. O áudio mostra uma espécie de “código interno” do crime organizado, onde até alianças possuem disputa por dinheiro e território.

Quem acompanha o avanço das facções no Rio sabe que o nome de Rabicó não é novo. Aos 61 anos, ele possui uma longa ficha criminal. Entre os registros aparecem homicídio, tentativa de homicídio, tráfico de drogas, organização criminosa e porte ilegal de arma.

Antes de ficar conhecido nacionalmente no Rio, Rabicó chegou a viver na Paraíba. Em 2008, acabou preso em Mamanguape depois de se apresentar como empresário. Na época, segundo investigações, ele tentava manter uma vida aparentemente discreta longe dos holofotes.

Mas nem a prisão impediu o avanço dele dentro da facção. Autoridades afirmam que o traficante continuou comandando ações criminosas mesmo atrás das grades. Esse tipo de situação, inclusive, virou tema frequente de debate no Brasil nos últimos anos, principalmente após casos envolvendo lideranças criminosas que conseguem se comunicar com comparsas mesmo dentro de presídios de segurança máxima.

Em 2014, uma investigação encontrou mais de R$ 3 milhões escondidos em tonéis enterrados em áreas de mata nas comunidades da Mangueira e do Salgueiro. Também foram apreendidos cerca de 50 quilos de cocaína e armas que, segundo a polícia, pertenciam diretamente ao traficante.

Rabicó chegou a ser condenado a mais de 27 anos de prisão e passou por penitenciárias de segurança máxima no Rio de Janeiro e também no Mato Grosso do Sul. Apesar disso, em 2019 ele acabou beneficiado por uma decisão do Supremo Tribunal Federal, o STF, que permitiu que aguardasse em liberdade o julgamento de um recurso.

Desde então, nunca mais voltou para a prisão e passou a ser considerado foragido.

O caso voltou a repercutir nas redes sociais nesta sexta. Muita gente questionou como um criminoso condenado conseguiu desaparecer mesmo sendo considerado uma liderança importante do tráfico. Outros lembraram o crescimento das facções nos últimos anos e cobraram respostas mais duras das autoridades.

Enquanto isso, a polícia segue tentando localizar Rabicó. Até o momento, ninguém foi preso nessa nova fase da operação.



Recomendamos