A possibilidade de uma derrota de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa pela Presidência contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já faz parte das discussões dentro do campo bolsonarista. Em entrevista concedida nesta terça-feira (21) ao jornalista Cláudio Dantas, Eduardo Bolsonaro voltou a questionar o sistema eletrônico de votação brasileiro, mesmo sem apresentar provas de irregularidades. Além disso, indicou que declarações e ações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, poderão ser usadas para reforçar uma eventual contestação do resultado das eleições.
As declarações acontecem justamente em um momento em que levantamentos de intenção de voto colocam Lula na frente de Flávio. Diante desse cenário, volta a ganhar espaço um discurso já utilizado pelo grupo político de Jair Bolsonaro antes e depois das eleições presidenciais de 2022, quando também foram levantadas suspeitas sobre o processo eleitoral brasileiro sem que fossem apresentadas evidências capazes de comprovar fraude.
Durante a entrevista, Eduardo tentou relacionar documentos divulgados pelo governo norte-americano sobre eleições realizadas em outros países às críticas feitas pelo Partido Liberal contra as urnas eletrônicas no Brasil. Segundo ele, o fato de Trump defender determinadas posições daria mais peso às alegações.
O ex-deputado também afirmou que, caso existisse uma manipulação, ela não precisaria atingir todos os votos registrados. Na visão dele, bastaria alterar uma parte dos votos para interferir no resultado final da eleição. Eduardo ainda declarou que uma vitória por ampla margem impediria qualquer tentativa desse tipo, argumento que acabou alimentando a hipótese de uma futura contestação caso Flávio Bolsonaro seja derrotado por pequena diferença.
Na prática, essa linha de raciocínio mantém uma estratégia já conhecida. Se o candidato apoiado pelo grupo vencer, o resultado tende a ser aceito normalmente. Porém, se houver derrota, voltam as acusações de que o sistema eleitoral seria falho ou passível de manipulação, apesar da ausência de provas que sustentem essa tese.
Outro ponto abordado por Eduardo Bolsonaro foi a divulgação de documentos ligados ao governo Trump. Para ele, esses materiais serviriam como justificativa para o que chamou de “mão grande” e “tapetão” na eleição presidencial brasileira de 2022. O ex-parlamentar também classificou as urnas eletrônicas como “máquinas obscuras” e afirmou que elas não poderiam ser auditadas.
Entretanto, essa afirmação não corresponde ao funcionamento do sistema eleitoral brasileiro. As urnas eletrônicas passam por diversas etapas de fiscalização e auditoria. Partidos políticos, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil, universidades, especialistas e outras instituições podem acompanhar procedimentos como a inspeção do código-fonte, testes públicos de segurança, emissão dos boletins de urna e o processo de totalização dos votos.
Depois das eleições de 2022, as próprias Forças Armadas produziram um relatório técnico que não apontou qualquer indício de fraude nas urnas eletrônicas. Da mesma forma, a auditoria solicitada pelo PSDB após a eleição presidencial de 2014 também não encontrou sinais de manipulação dos resultados. Até hoje, nenhuma investigação apresentou provas de fraude capaz de alterar o resultado de uma eleição realizada com o atual sistema eletrônico de votação.
A estratégia citada por Eduardo lembra o comportamento adotado por Donald Trump após a eleição presidencial norte-americana de 2020. Antes mesmo da votação, Trump levantava dúvidas sobre o processo eleitoral. Depois da derrota para Joe Biden, passou a afirmar que a eleição havia sido fraudada, mas as alegações foram rejeitadas por tribunais, autoridades eleitorais e auditorias realizadas em diferentes estados dos Estados Unidos.
As declarações de Eduardo também acontecem pouco tempo depois de ele obter o green card, documento que garante residência permanente nos Estados Unidos. Nos últimos meses, ele intensificou sua atuação política naquele país, fazendo críticas a autoridades e instituições brasileiras.
O bolsonarismo já tentou seguir caminho parecido após a eleição de 2022. Na ocasião, o PL pediu ao Tribunal Superior Eleitoral a anulação dos votos registrados em mais de 279 mil urnas eletrônicas. O pedido, porém, questionava apenas o segundo turno, justamente aquele em que Jair Bolsonaro foi derrotado, embora as mesmas urnas tivessem sido utilizadas no primeiro turno, quando candidatos do partido conquistaram diversas vagas no Congresso Nacional.
Sem provas de irregularidades, a ação foi rejeitada pelo TSE. Além disso, o partido acabou sendo condenado por litigância de má-fé e recebeu multa de R$ 22,9 milhões. Agora, com Flávio Bolsonaro aparecendo atrás de Lula nas pesquisas eleitorais, Eduardo volta a levantar questionamentos sobre o sistema de votação, reforçando um discurso que já marcou o cenário político brasileiro nos últimos anos.