Análise: Desmatamento já virou custo para o comércio brasileiro

Desmatamento e Comércio: Como os EUA e a UE Impactam o Agronegócio Brasileiro

A recente decisão dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre alguns produtos brasileiros acende um alerta que já foi ecoado por ambientalistas durante muitos anos. Essa medida não é apenas um sinal de preocupação ambiental, mas também um indicativo de que o desmatamento, uma questão que antes era vista como um passivo ecológico, agora se torna um custo que pode afetar diretamente a competitividade no mercado global.

O que está por trás da tarifa?

O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, destacou que a fiscalização inadequada do desmatamento ilegal no Brasil permite que a produção agrícola seja realizada a custos reduzidos, conferindo uma vantagem desleal aos produtores brasileiros. Essa acusação foi formalmente incorporada à investigação da Seção 301, que abrange uma variedade de temas, desde comércio digital até propriedade intelectual.

Vale ressaltar que a tarifa não é uma resposta isolada ao desmatamento. Ela atinge diversos setores, com exceções importantes, como carne bovina e café. Contudo, essa ressalva não diminui a gravidade da situação: a falha ambiental interna do Brasil se tornou um dos pilares legais que os EUA usam para justificar a imposição de sanções comerciais.

A Perspectiva Europeia

Na União Europeia, a abordagem é diferente, mas igualmente rigorosa. O bloco europeu não impõe uma tarifa ambiental, mas condiciona o acesso ao mercado a critérios ambientais. A partir de 30 de dezembro de 2026, empresas de grande e médio porte terão que provar que produtos como carne bovina, soja, café, cacau, borracha, óleo de palma e madeira não estão relacionados a áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020, respeitando a legislação do país de origem.

A rastreabilidade, a geolocalização e a diligência sobre os fornecedores tornam-se, assim, partes essenciais do produto. Não basta ter um preço competitivo ou uma boa qualidade; a falta de comprovação de origem pode resultar na perda de compradores, auditorias adicionais ou até mesmo na proibição de entrada em mercados importantes.

O desafio brasileiro

O Brasil enfrenta um desafio adicional: a acusação dos EUA foca no desmatamento ilegal, enquanto a regra da UE rejeita mercadorias associadas até mesmo a desmatamentos que foram autorizados pela legislação brasileira, desde que ocorram após a data limite. Isso significa que uma área pode ter sido aberta de forma legal, mas ainda assim tornar o produto inaceitável para os consumidores europeus.

Essa situação não implica que todas as exigências ambientais sejam neutras ou isentas de protecionismo. Padrões legítimos podem, de fato, aumentar os custos dos concorrentes e proteger os produtores locais. A política comercial frequentemente não distingue entre valores, interesses e poder. O erro do Brasil seria usar essa ambiguidade como um pretexto para não resolver as fragilidades que tornam a argumentação externa mais convincente.

Resultados e Rastreabilidade

Recentes dados do Prodes estimam que o desmatamento na Amazônia foi de 5.796 quilômetros quadrados em 2025, uma queda de 11,08% em relação ao ano anterior. Além disso, entre agosto de 2025 e junho de 2026, os alertas do Deter mostraram uma redução de 37,2%. Embora esses números sejam animadores, ainda não comprovam a origem de cada produto, como bois, sacas de café, cargas de soja ou lotes de madeira.

Esse é o ponto crucial da economia: os produtores que cumprem a lei acabam pagando pela opacidade dos que não cumprem. Quando a origem não pode ser demonstrada, o risco se espalha por toda a cadeia produtiva, aumentando custos de financiamento, seguro e auditoria, além de fornecer argumentos a governos e concorrentes que desejam restringir a entrada de produtos brasileiros.

Construindo uma Base Sólida

A rastreabilidade deve ser vista como uma infraestrutura de competitividade, tão importante quanto portos, estradas e defesa sanitária. Integrar informações fundiárias, ambientais, fiscais e produtivas permitiria diferenciar o que é regular do que é irregular, premiando quem preserva e permitindo que o Brasil responda a contestações com dados verificáveis.

Durante anos, o aviso de que a floresta poderia se tornar uma barreira comercial foi dado. Agora, essa realidade já influencia o preço dos produtos, o acesso aos mercados e até mesmo as relações diplomáticas. Defender o agronegócio brasileiro exige que se prove que a vantagem competitiva vem da produtividade, tecnologia e eficiência, e não do desmatamento.



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