Ventania extrema causa estragos no Sudeste; entenda o que provocou o fenômeno

Os eventos climáticos extremos que atingiram várias regiões do Brasil nos últimos dias acenderam um sinal de alerta entre meteorologistas e especialistas. Em um curto espaço de tempo, o país registrou ventos muito fortes em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, além de enchentes severas e até um tornado no Rio Grande do Sul. A sequência de fenômenos chamou a atenção não só da população, mas também de quem acompanha o comportamento do clima há muitos anos.

Depois das fortes rajadas de vento que causaram destruição em cidades do Sudeste, muita gente passou a relacionar tudo isso ao El Niño. Algumas autoridades locais chegaram a citar o fenômeno como principal responsável pelo ocorrido. Só que, segundo especialistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), essa ligação não é tão direta quanto parece.

O climatologista José Marengo explicou que o caso registrado em São Paulo e no Rio de Janeiro teve origem em um choque muito intenso entre massas de ar. De um lado, estavam temperaturas bastante elevadas. Do outro, uma frente fria avançando rapidamente. Esse encontro acabou formando uma chamada “frente de rajada”, capaz de produzir ventos extremamente fortes.

Em alguns pontos, as rajadas ultrapassaram os 120 quilômetros por hora, um número considerado muito acima do normal para essa época do ano. O resultado foi um verdadeiro cenário de destruição. Árvores caíram sobre carros e casas, telhados foram arrancados, bairros ficaram horas sem energia elétrica e o transporte público sofreu diversos transtornos. Em algumas cidades, infelizmente, também houve registro de mortes provocadas pelos acidentes causados pelo vento.

Outro especialista do Cemaden, Marcelo Seluchi, reforçou que ainda é cedo para colocar toda a culpa no El Niño. Segundo ele, o fenômeno climático ainda está em fase inicial e dificilmente explicaria sozinho uma ventania tão intensa no Sudeste brasileiro. Ele lembrou que esse tipo de evento é considerado muito raro durante a estação seca.

Pedro Camarinha também comentou que ventos dessa intensidade costumam aparecer com mais frequência nos meses de transição entre as estações, principalmente entre setembro, outubro e novembro. Por isso, o episódio registrado agora acabou surpreendendo até quem trabalha diariamente com previsão do tempo. A expectativa dos meteorologistas é que o El Niño atinja sua maior intensidade entre novembro deste ano e fevereiro do próximo.

Enquanto isso, a situação no Sul do Brasil é diferente. Lá, os efeitos do El Niño já começam a aparecer de forma mais evidente. As chuvas intensas que atingiram o Rio Grande do Sul, provocando alagamentos, prejuízos e até a formação de um tornado, estão dentro do comportamento esperado para esse fenômeno climático.

O meteorologista César Soares, da Climatempo, explica que o aumento da temperatura favorece a formação de temporais mais fortes na região Sul. Com mais calor e mais umidade disponível na atmosfera, cresce também a possibilidade de tempestades severas e até tornados, principalmente quando outros fatores meteorológicos também estão presentes.

O El Niño altera o padrão das chuvas em praticamente todo o território brasileiro. Normalmente, ele aumenta o volume de precipitação na região Sul, enquanto favorece períodos mais secos no Norte e Nordeste. Já no Centro-Oeste e no Sudeste, os efeitos costumam variar bastante, alternando momentos de calor intenso com períodos de instabilidade e tempestades.

Mesmo assim, os especialistas fazem questão de lembrar que o El Niño não explica tudo. As mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global continuam sendo apontadas como o principal fator responsável pelo aumento da frequência e da intensidade dos eventos extremos registrados nos últimos anos. O planeta está mais quente, e isso cria condições para fenômenos cada vez mais intensos. Por isso, pesquisadores alertam que situações como as vistas recentemente podem deixar de ser exceção e passar a acontecer com muito mais frequência nos próximos anos.



Recomendamos