A possibilidade de uma interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras voltou a ganhar força diante da aproximação entre integrantes do governo de Donald Trump e nomes ligados ao bolsonarismo. Para críticos da política externa norte-americana, os movimentos recentes vão além de simples “tensões diplomáticas” e podem ter impacto direto na disputa eleitoral brasileira.
Um dos principais pontos dessa discussão envolve Flávio Bolsonaro. O senador e pré-candidato do PL esteve nos Estados Unidos em maio e teve encontros com Trump, Marco Rubio, secretário de Estado, e JD Vance, vice-presidente norte-americano. Durante a viagem, Flávio defendeu que o Comando Vermelho e o PCC fossem classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas.
Poucos dias depois, o governo norte-americano anunciou medidas nessa direção. O episódio passou a ser explorado politicamente por aliados de Flávio, que apresentaram a decisão como resultado de uma articulação feita durante a viagem.
Outro nome que aparece nesse contexto é Darren Beattie, integrante do Departamento de Estado responsável por assuntos relacionados ao Brasil. Ele chegou a se reunir com Flávio durante a passagem do senador pelos Estados Unidos. Beattie também já adotou uma postura bastante crítica em relação ao Supremo Tribunal Federal e, principalmente, ao ministro Alexandre de Moraes.
A atuação de outros integrantes do governo Trump também chama atenção. Ricardo Pita, conselheiro do Departamento de Estado para o Hemisfério Ocidental, esteve anteriormente com Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro durante visita ao Brasil. Segundo relatos publicados pela imprensa, os contatos ocorreram sem comunicação prévia ao Itamaraty, aumentando o desconforto entre diplomatas brasileiros.
As relações ficaram ainda mais tensas quando Trump passou a anunciar medidas comerciais contra o Brasil. Em uma publicação nas redes sociais, o presidente norte-americano elogiou Flávio Bolsonaro após o encontro na Casa Branca. Pouco depois, os Estados Unidos anunciaram novas tarifas sobre produtos brasileiros.
O governo Trump justificou as medidas alegando problemas comerciais e outras questões relacionadas às políticas brasileiras. Já autoridades e diplomatas do Brasil afirmam que o governo Lula tentou negociar e que não houve abertura suficiente por parte dos Estados Unidos.
Nesse cenário, Flávio passou a enfrentar também a cobrança sobre o chamado “tarifaço”. A oposição ao governo Lula tenta responsabilizar o presidente pelas consequências econômicas das medidas norte-americanas, enquanto aliados do governo afirmam que as tarifas fazem parte de uma estratégia política de Washington.
Outro ponto de preocupação envolve a discussão sobre liberdade de expressão e eleições. Integrantes do Departamento de Estado demonstraram interesse em tratar desses assuntos no Brasil, inclusive com contatos previstos com políticos e representantes de grupos conservadores.
Reuniões entre diplomatas norte-americanos e influenciadores brasileiros também provocaram repercussão. O tema central teria sido a liberdade de expressão e os problemas enfrentados por produtores de conteúdo no ambiente digital. Para críticos, encontros desse tipo podem acabar fortalecendo a narrativa de perseguição contra grupos ligados ao bolsonarismo.
A indicação de um novo embaixador dos Estados Unidos para o Brasil também entrou nessa disputa. A escolha de um nome com perfil político e pouca experiência diplomática provocou questionamentos sobre a estratégia de Washington justamente em um período próximo das eleições.
Ao mesmo tempo, o governo norte-americano ampliou as críticas ao Brasil e ao governo Lula. Em documentos oficiais, autoridades dos EUA acusaram o país de adotar medidas que prejudicariam interesses norte-americanos e questionaram decisões relacionadas à liberdade de expressão e ao Judiciário.
O resultado é um ambiente diplomático cada vez mais delicado. De um lado, Washington afirma defender interesses econômicos e questões relacionadas à liberdade de expressão. Do outro, críticos enxergam uma tentativa de pressionar o governo brasileiro e favorecer setores específicos da política nacional.
Com as eleições se aproximando, cada gesto, encontro ou declaração ganha peso. A grande questão agora é até onde essa aproximação entre autoridades norte-americanas e políticos brasileiros poderá chegar e qual será o impacto disso na disputa eleitoral.