Preparação Antecipada: O Que Fazer Antes de Uma Emergência Climática
A conta de uma enchente, por exemplo, não começa a ser feita no momento em que a água invade as casas. Da mesma forma, um deslizamento não se inicia apenas quando a encosta cede e a terra desmorona. O que muitas vezes não é percebido é que uma boa parte do prejuízo é definida bem antes disso, em decisões que envolvem drenagem, ocupação urbana e manutenção da infraestrutura. É fundamental que as prefeituras e a sociedade em geral estejam cientes de que a prevenção é a chave para minimizar os danos quando eventos extremos ocorrem.
O Guia Prático da ABM
Recentemente, a Associação Brasileira de Municípios (ABM) lançou um Guia Prático para Enfrentamento ao Super El Niño e Eventos Climáticos Extremos. Apesar do termo “Super El Niño” não ser uma classificação oficialmente adotada pela Organização Meteorológica Mundial, o guia vai além disso. Ele oferece um roteiro que visa incorporar a gestão de riscos ao cotidiano das prefeituras, abordando de forma prática como se preparar para desastres antes que eles cheguem.
O principal mérito do guia não está apenas em indicar o que fazer quando a calamidade já ocorreu, mas sim em enfatizar a importância de estar preparado antes que o desastre chegue. Mapas de risco, identificação da população vulnerável, planos de contingência, sistemas de alerta, rotas de evacuação e abrigos são elementos que não devem ser improvisados em momentos de crise. A palavra-chave aqui é prevenção.
Responsabilidades Compartilhadas
Outra questão importante levantada pelo guia é a distribuição de responsabilidades. A Defesa Civil, sem dúvida, tem um papel crucial na coordenação da gestão do risco, mas outras áreas, como Saúde, Assistência Social, Infraestrutura e Meio Ambiente, também possuem funções que devem estar bem definidas e alinhadas. É essencial que haja uma comunicação fluida entre todos os setores envolvidos, pois isso aumenta as chances de uma resposta eficiente durante a emergência.
É interessante notar que essa dimensão administrativa, muitas vezes esquecida, é vital. Durante uma crise, decisões jurídicas, financeiras e operacionais precisam ser tomadas em questão de horas. Portanto, elementos como cadeia de comando, gabinete de crise, protocolos, fornecedores e comunicação oficial não podem ser deixados de lado.
Benefícios Econômicos da Prevenção
Além da segurança das pessoas, há também razões econômicas para se investir em preparação. A Organização Meteorológica Mundial aponta que para cada US$ 1 investido em sistemas de alerta precoce, pode-se gerar até US$ 10 em benefícios. Além disso, estudos da Global Commission on Adaptation mostram que ter 24 horas de aviso prévio antes de tempestades ou ondas de calor pode reduzir os danos em até 30%. Isso se traduz em um investimento que, a longo prazo, pode evitar gastos ainda maiores com recuperação e reconstrução.
O Banco Mundial, por sua vez, estima que, em países de baixa e média renda, cada US$ 1 aplicado em sistemas mais resilientes pode resultar em aproximadamente US$ 4 em benefícios. Essas referências internacionais não são regras fixas que se aplicam diretamente às prefeituras brasileiras, mas ajudam a ter uma noção do custo de não se preparar adequadamente.
A Importância da Resposta Rápida
Quando um evento extremo acontece, o planejamento se transforma em operação. Nos primeiros dias após a emergência, ações como monitoramento, alertas, evacuações, atendimento médico e recuperação dos acessos devem ser iniciadas rapidamente. A velocidade de resposta reflete, em grande medida, as decisões tomadas muito antes do desastre.
Reconstrução e Futuras Vulnerabilidades
O guia também aborda a questão da reconstrução. Muitas vezes, ao reerguer uma ponte ou uma avenida, corre-se o risco de reconstruir a vulnerabilidade. É crucial rever mapas de risco, aumentar a capacidade de drenagem e estabilizar encostas para evitar que o mesmo cenário se repita no futuro.
Desafios nos Orçamentos Públicos
Um dos grandes desafios está em inserir essas práticas nos orçamentos públicos. O retorno da adaptação e da prevenção muitas vezes aparece na forma de algo que não ocorreu, como uma inundação menos severa ou uma estrada que permaneceu aberta. Muitas vezes, os benefícios são invisíveis e não são contabilizados.
Entretanto, é importante reconhecer que os municípios brasileiros têm capacidades fiscais e técnicas bastante diversas. Exigir planejamento e infraestrutura resiliente sem oferecer a capacitação e financiamento necessários pode transformar uma agenda correta em um fardo difícil de carregar.
Conclusão
O guia da ABM oferece uma estrutura clara para as responsabilidades locais. O maior desafio agora é criar condições para que essas diretrizes sejam cumpridas. A gestão de desastres não deve começar no dia do evento, mas sim ser uma prática contínua, uma vez que, quando a sirene toca, a emergência já começou a se desenrolar. Uma boa parte do resultado já estará decidido antes mesmo do desastre ocorrer.