O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi entrevistado na noite de quinta-feira, 27, pelo Jornal Nacional, da TV Globo. Durante a conversa, o candidato à reeleição falou sobre economia, educação, INSS, fome, Banco Central e outros assuntos relacionados ao seu governo e também à gestão anterior.
Depois da entrevista, o Estadão Verifica, núcleo de checagem de fatos do Estadão, analisou diversas declarações feitas pelo presidente. A equipe considerou apenas informações que poderiam ser verificadas objetivamente, como números, datas, comparações e dados oficiais. O resultado mostrou uma mistura de afirmações verdadeiras com outras consideradas imprecisas, exageradas, enganosas ou falsas.
Um dos principais assuntos foi a fraude no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Lula afirmou que o esquema teria sido formado em 2019 e que o atual governo passou dois anos investigando o caso. Segundo a checagem, a declaração é enganosa. A investigação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União apontou cerca de R$ 6,3 bilhões em descontos indevidos entre 2019 e 2024, mas não determinou que o esquema tenha começado exatamente em 2019. Há, inclusive, registros de descontos indevidos desde 2016.
O presidente também afirmou que o governo ressarciu R$ 3,5 bilhões a 5 milhões de aposentados e pensionistas. O dado foi considerado impreciso. O valor efetivamente pago foi de aproximadamente R$ 3,26 bilhões para 4,8 milhões de pessoas. Além disso, cerca de 660 mil beneficiários que tinham direito ao ressarcimento ainda não haviam aderido ao acordo informado na época.
Outro ponto citado foi a fila do INSS. Lula disse que ela chegou a 3 milhões de pessoas e que será zerada. Nesse caso, a checagem considerou a informação verdadeira apenas em parte. A fila chegou a superar 3 milhões de pessoas, mas, apesar da redução para cerca de 1,28 milhão, ainda não é possível garantir que será completamente eliminada durante o atual governo.
Na área econômica, Lula afirmou que o Banco Master causou um prejuízo de R$ 60 bilhões. Essa declaração foi considerada verdadeira, pois o número está relacionado ao rombo no Fundo Garantidor de Créditos, que precisou ressarcir investidores.
Já a afirmação de que Lula teria sido o único presidente do Brasil e do G20 a registrar superávit primário durante os oito anos de seus primeiros mandatos foi classificada como enganosa. Embora o Brasil tenha registrado resultados positivos naquele período, a Argentina também apresentou superávit em todos os anos dos primeiros mandatos de Lula e também integra o G20.
Sobre o crescimento econômico, o presidente disse que o Brasil estava havia mais de dez anos sem crescer e que o PIB só voltou a avançar acima de 2% após seu retorno à Presidência. A afirmação é falsa segundo os dados do IBGE. Em 2021, a economia brasileira cresceu 4,6%, enquanto em 2022 houve alta de 3%.
Por outro lado, Lula acertou ao afirmar que o PIB brasileiro cresceu 7,5% em 2010, durante seu segundo mandato.
Na educação, algumas declarações também foram confirmadas. O Brasil alcançou 66% de crianças alfabetizadas no segundo ano do ensino fundamental em 2025, superando a meta estabelecida para aquele período. O programa Pé-de-Meia também foi citado pelo presidente, mas a checagem apontou que sua origem ocorreu no Congresso Nacional, antes de ser implementado pelo governo federal.
No caso da fome, a afirmação de Lula de que o Brasil saiu duas vezes do Mapa da Fome foi considerada verdadeira. O país deixou a classificação em 2014 e novamente em 2025, ambos os momentos durante governos do petista.
A checagem também confirmou que o Brasil possui a segunda maior reserva estimada de terras raras do mundo, atrás apenas da China.
Assim, a entrevista reuniu declarações corretas, mas também informações que precisavam de contexto ou apresentavam números diferentes dos dados oficiais. A análise mostra como, principalmente em períodos eleitorais, números e comparações precisam ser observados com atenção antes de serem considerados como fatos.